Francisco Nobrega entrevista o educador José Pacheco

Por Francisco Nobrega*

 

Durante sua recente visita ao SESC de São José dos Campos em Abril de 2017, foi possível conversar com o educador José Pacheco que há cerca de 40 anos, em Portugal, criou um sistema de aprendizado inclusivo que se revelou um sucesso para seus egressos. As inovações que introduziu são hoje “descobertas” nos melhores centros dedicados à educação no mundo. Há mais de uma década, para nossa sorte, Pacheco atua no Brasil onde ele e equipe desenvolvem mais de 200 projetos educacionais. O Projeto Âncora em Cotia, SP é um dos mais avançados. Nossas perguntas:

Existe uma percepção comum de que a maneira não ortodoxa de aprendizado que seu modelo desenvolve não prepararia os egressos para os desafios do mundo real.

Esta é uma afirmação que escutei repetidamente, por 40 anos. Na verdade, as avaliações que foram feitas por comissões indicadas pelo Ministério da Educação chegam sempre à mesma conclusão: os alunos egressos da Ponte obtêm muito bons resultados no percurso escolar posterior. Posso enviar os relatórios da avaliação externa de alguns anos que provam exatamente isto: foram ver as notas desses alunos que eram bem superiores que a dos demais, o que parece surpreendente. Mas eu compreendo porque a sociedade pensa do modo que pensa escola.

Seria um problema a falta de professores preparados para o novo estilo de interação com os jovens?

Sempre digo que o primeiro obstáculo sou eu mesmo, minha cultura pessoal, minha cultura profissional, porque o professor tem uma desvantagem em relação a outras profissões. Enquanto o médico tira o curso e vai fazer residência depois, o engenheiro tira o curso e vai fazer um estágio, o professor faz o estágio antes: aos 6 anos entra em estágio, fica 12 anos ouvindo aula, entra na universidade e tem mais 4 anos de aula e depois… vai dar aula! Ele reproduz o que viveu. Mas há outros problemas. No Brasil um dos obstáculos maiores é a descontinuidade das políticas públicas. Quando muda uma prefeitura, a tendência é eliminar tudo da gestão anterior. Isso tem destruído muitos projetos de excelente qualidade. Outro obstáculo é a formação dos professores: como está não serve para a transformação necessária. Não serve porque não é “isomórfica*, considera o professor como objeto e não como sujeito em auto formação na aprendizagem, enfim um conjunto de circunstâncias que explicam como as escolas têm alunos do século 21 e professores do século 20 a trabalhar como no século 19. A universidade, infelizmente, reproduz o modelo do século 19, criado na Prússia militar, na França e durante a Revolução Industrial na Inglaterra. Essa proposta, que respondeu às necessidades sociais do século 19, é atualmente um absurdo.

No Brasil, acompanho, direta ou indiretamente, juntamente com uma grande equipe, mais de 200 projetos dos quais cerca de 50 são de iniciativa particular, universidades e escolas.

O que diz sobre a questão do financiamento na educação?

A educação é um direito e portanto deve ser gratuita. Na Constituição da Nação Brasileira está consagrado o direito à educação e a própria Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação diz que é um dever do estado. Então, se assim é e se o modo que as escolas trabalham não garante o direito à educação, eu pergunto se têm o direto de continuar trabalhando desse modo. Coloco a questão eticamente: não tem esse direito! A questão do financiamento é uma falsa questão, o dinheiro que temos para a educação chega e sobra se for feita uma gestão moderna. O problema é que as escolas são geridas burocraticamente e, portanto, o dinheiro se esvai.

Existe dificuldade em obter a autorização oficial para funcionar como escola reconhecida e diplomar oficialmente seus egressos?

Não. Nos projetos que acompanho, quase sempre as Secretarias de Educação me chamam para dizer que não é possível ter um projeto assim, que não tem aula, não tem turma, não tem horário, não tem prova… Eu pergunto onde está escrito que não pode? E a lei permite! Chegamos à conclusão de que os secretários de educação são pessoas conscientes, que amam seus alunos e portanto como pessoas inteligentes e conhecedoras da lei percebem que nós temos razão. Isto coloca uma questão. As escolas que tem aula, que tem turno, é que estão fora da lei! Vejam o 23o artigo da LDB ou o 15o que tem a ver com a autonomia da escola e que nunca foi regulamentado. Portanto não precisamos de autorização nenhuma, bem ao contrário nós enquadramos todos projetos que acompanho na LDB e no Plano Nacional de Educação. E trabalhamos do pré-natal até a morte! Desde a creche, passando pela pré-escola, pelo ensino médio, universidade e pós graduação. Há uma universidade brasileira na Foz do Iguaçu, que já não tem aula, nem turma, nem nada disso. Mas temos muitas outras instituições que acompanhamos, onde eu aprendo e onde vamos fazendo coisas diferentes para melhor.

Como a escola que criou lida com questões hoje dramáticas como a indisciplina e o “bullying”?

A indisciplina é filha predileta do autoritarismo casado com a permissividade. É resultante do controle, promove a desobediência do jovem devido a prescrições que lhes são alheias. Eles não participam da definição das regras. Então, a ausência de uma relação democrática é responsável por esses problemas. Também, o professor não ensina aquilo que diz e sim transmite aquilo que é. Mais do que isso, o fato do professor estar sozinho na sala de aula e não ser autônomo, porque sozinho ninguém é autônomo, é apenas autossuficiente, desenvolve nos alunos um individualismo feroz, que se converte mais tarde ou mais cedo em múltiplas violências, em indisciplina, que é uma manifestação dessa violência que se exerce sobre o aprendiz. Então é necessário rever o modelo de gestão, rever o modelo. Bem, o professor também sofre com isso. A escola é um espaço onde a violência impera, explícita ou oculta, simbólica.

Um aspecto especial de suas escolas é não aceitar que parte dos alunos não aprendam, não progridam. Como conseguem?

Os princípios básicos dos projetos que acompanho destacam em primeiro lugar: todos podem aprender. Desenvolvemos a dimensão do currículo subjetivo, respondendo ao potencial educativo de cada um, aos seus talentos. Ao mesmo tempo, como tudo está centrado nas relações, procuramos que estes jovens não aprendam sozinhos e desenvolvemos um currículo comunitário, partilhando conhecimento, tornando-o capaz de adquirir competências. Desta síntese surge uma ideia de consciência planetária bem diferente daquela que caracteriza uma selva humana a caminho da extinção… As escolas são pessoas e as pessoas são seus valores. Quando esses valores são transformados em carta de princípios da ação, conduzem ao desenvolvimento de projetos. Projetos que deverão ter por princípio básico que todos podem aprender, que a LDB deve ser concretizada e a Constituição da Federação também.

Recebeu em sua escola crianças pobres, muitas marcadas pela violência e descaso. Confirma que o ambiente criado conseguiu desenvolver as competências socioemocionais nessas crianças?

O ser humano é multidimensional, não é só cognição, não se esgota em receber informação. Ele é também emoção, afeto, ética, estética, espiritualidade etc. Essa criança que chega sem querer fazer nada, desmotivada, às vezes até violentada, ela está doente e o que nós fazemos é tentar criar um vínculo afetivo com ela. Não é fácil. Mas criando-se esse vínculo afetivo a aprendizagem acontece. Essas crianças ditas difíceis, jogadas fora da escola, só precisam de firmeza e carinho. É o quanto basta.

Há uma literatura sobre sociopatia que define essa característica psicológica como uma incapacidade da pessoa se colocar no lugar do outro e perceber seu sofrimento. Seria impossível de corrigir na idade adulta. Em crianças o diagnóstico da tendência apareceria por exemplo na crueldade com animais e outras crianças. Tem relatos de receber jovens delinquentes em graus variados na escola. O que pode nos contar sobre as possibilidades desses jovens?

Nós tivemos muitos casos de jovens 17, 18, 19 anos que estavam praticamente perdidos, envolvidos em tráfico, e que se recuperaram perfeitamente. Não foi fácil, volto a dizer. Mas eu prefiro trabalhar a montante não à jusante do sistema, porque esses jovens passam por uma via sacra. Um criminoso não nasce criminoso, é uma construção social e nós trabalhamos por exemplo aquela mãe de 14 anos que tem um filhinho e que foi posta fora da escola, rejeitada pela família. A escola, que é comunidade, incide particularmente sua atenção nesses casos para que se evite que jovens cheguem aos 17, 18 ou 19 cometendo crimes. O que me agrada saber é que recebemos jovens que mataram, outros que puseram professores em estado de coma em outras escolas e todos eles se tornaram ótimas pessoas. O mais velho tem mais de 50 anos e é um homem maravilhoso.

Temos no momento um governo de transição antes da esperada eleição de 2018. Sentiu receptividade para ações positivas? Houve interrupção de boas iniciativas? Como vê este ano de 2017 para a educação básica no Brasil?

Há dois anos atrás o Ministro Renato Janine Ribeiro constituiu uma equipe de trabalho para encontrar escolas inovadoras. Eu fui convidado, aceitei, trabalho gratuito, e nós encontramos centenas delas. O Ministério comprometeu-se a acompanhar o estudo. Porém, quando veio o novo governo, tudo foi esquecido. Mas nós assumimos um compromisso e estamos buscando um modo de acompanhar os projetos. Alguns foram extintos com mudança de prefeituras. A situação dos projetos inovadores é muito frágil. Estamos a tentar criar uma rede de projetos para que eles não se extingam. Mas o Ministério vai fazendo disparates… Por exemplo, essa medida provisória do ensino médio é uma coisa sem sentido nenhum, que não vai resolver absolutamente nada. Todos nós fazemos política mas eu não faço política partidária, até porque eu não sou brasileiro, não voto. Mas tenho opinião. Vivi muito a política, em Portugal. Fui prefeito de cidade e sei muito bem o que é a política neste país. Lamento realmente que o Ministério da Educação siga o rumo que está seguindo, que é de desastre total. Medidas político educativas sem qualquer nexo, sem fundamentação nenhuma, coisas enfim que é melhor não comentar, dizer mal, mas já disse…

É possível um professor no contexto atual da escola pública ou privada, em sua classe, por conta própria, adotar um estilo que busca os bons métodos e resultados da Ponte ou do Âncora?

Projetos humanos são projetos colaborativos, sozinho ninguém faz nada. Quando os pais manifestam preocupação com a educação que é dada a seus filhos nas escolas, eu digo sempre: vão às escolas procurar os professores que ainda não tenham morrido. Há alguns que estão vivos. Se lhe derem as mãos, acontecerão projetos, respeitando aqueles que não querem, pois há professores que não vão aderir. Fazendo o que é preciso que é cumprir o projeto político pedagógico. Serei esperançoso, mais uns vinte anos, talvez… Porque o Brasil tem os melhores teóricos, tem os melhores projetos, apesar de ter também os maiores falastrões e os piores projetos, mas é o Brasil, não é?

Porque as escolas próximas não emulam a gestão das boas escolas que aparecem por esse Brasil?

Habitualmente é o contrário. Quando uma escola começa a mudar percebe que o maior aliado do professor é outro colega e o maior inimigo é o professor da escola ao lado. Coisa terrível que experimentei. E me magoa muito. É uma mágoa muito grande que eu mantenho ainda hoje, 40 anos depois do início do projeto da Escola da Ponte. Quando me perguntam algo sobre a história da Escola da Ponte, respondo que é uma história de resiliência e de sofrimento. Mais do que as mudanças na pedagogia foi a grande capacidade de resistir às frustrações e à maldade que suportou o projeto. E, também, a intuição pedagógica e o amor pela infância.

Muito obrigado Professor!


* “isomórfica” — significa uma formação com estratégias e metodologias semelhantes àquelas que vão usar como profissionais 

Para conhecer o que o grupo faz existe informação no site da EcoHabitare: http://ecohabitare.com.br onde podem fazer contato aqueles que desejem iniciar um projeto educacional moderno.

Entrevista conduzida por Francisco G. Nóbrega, francisco.nobrega@gmail.com

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