Sustentabilidade: o desafio do nosso tempo

\"marcoVivemos um tempo de profundas interrogações. Elas se espalham por muitas áreas, mas uma dessas interrogações se constitui num desafio de grandes proporções: qual o nível de segurança de nosso futuro? Nossas sociedades são sustentáveis? Não é a primeira vez que a humanidade encara desafios dessa ordem. A peste negra na Europa, as duas guerras mundiais, a queda de impérios aparentemente indestrutíveis, entre outros grandes momentos de transformação foram duros golpes que mudaram a história. Cada um desses momentos deixou marcas que em muito ultrapassaram seu tempo e lugar, já que todo fato tem consequências sistêmicas. As guerras mundiais, por exemplo, não chegaram com total força destrutiva a alguns lugares, mesmo assim mudaram a face do mundo pelos seus desdobramentos em termos de poder político e econômico, modificando inclusiveesses lugares em que a guerra não chegou.O desafio de nosso tempoguarda um poder destruidor de igual proporção em termos de consequências sistêmicas, mas que vem de forma diferente, lenta e gradualmente comprometendo as condições necessárias à sobrevivência da humanidade e dos ecossistemas como conhecemos hoje. O termo que qualifica esse desafio é sustentabilidade.

O termo sustentabilidade busca definir metas que garantam nosso futuro comum. Parte do princípio de que trilhamos um caminho insustentável a partir das consequências da ordem econômica dominante sobre as esferas das sociedades humanas e da natureza. É um tema complexo, permeado por interesses poderosos.Quando o termo Desenvolvimento Sustentável veio a público, durante a Rio-92, significou o surgimento de um sonho coletivo que prometia unir a humanidade numa nova e construtivarelação com o mundo natural. Originalmente, foi o alerta da comunidade científica sobre os efeitos da atividade humana sobre o meio ambiente que soou o alarme da insustentabilidade. Logo ficou claro que junta-se à crescente extinção de espécies, destruição dos ecossistemas e às mudanças climáticas o fato de uma parcela importante da humanidade viver em situação sub-humana. Tornou-se evidente que o que determina essas duas realidades é uma ação econômica eticamente desvinculada da realidade que cria.

A lógica e o sistema de crenças que orientaram a sociedade industrial a evoluir para sociedade de consumo está na raiz da crise de insustentabilidade da vida. Produzir de forma crescente para nutrir um consumo também crescente esbarrou nos limites do planeta. Mas esse sistema de crenças se assegura numa quase universal aceitação ao oferecer facilidades, desejos e prazeres, de forma que um impasse civilizatório se instala quando a normalidade aceita e desejada se descobre associada a um futuro duvidoso. Somos, assim, desafiados a interrogar o sentido das crençasque orientam a ação econômica, a sociedade de consumo e até mesmo nosso entendimento de nós mesmos. Mas não apenas na esfera subjetiva das crenças e valores se insere esse questionamento. Também na esfera das múltiplas tecnologias que operacionalizam os desejos coletivos. São elas o elo final da corrente que fere a vida. O sonho coletivo de uma sociedade sustentável, centrada em metas de justiça social e ambiental gradualmente se asfixia no adiamento dessa profunda revisão. Mesmo as fundamentais contribuições de uma ciência comprometida com a ética, nesse adiamento acabam substituídas pelo mero fornecimento de tecnologias mais modernas para dar mais eficiência a uma rota questionável.

Clareza sobre fatos e soluções são uma necessidade urgente. Governos movem-se tão lentamente no redirecionamento para uma economia socialmente justa e ecologicamente orientada que se cria uma atmosfera de desdém na opinião pública, tão incoerente com a seriedade da questão quanto aparentemente inconsciente quanto ao que realmente está em jogo. Mas essa inconsciência é apenas aparente. Quando questionadas, tal como faço em meus trabalhos de Ecopsicologia, as pessoas revelam sentimentos de insegurança, tristeza e ansiedade em relação ao estado do mundo. Uma força potencial que poderia ser galvanizada na correta direção rumo ao sonho comum que o termo sustentabilidade se destinou a ser e que gradualmente se perde pela desmobilização da consciência coletiva. Retomar o sonho de um futuro comum orientado por valores que unam a humanidade e a reconectem com a vida é urgente. Para tirá-lo do esquecimento e trazê-lo à consciência, um entendimento ampliado das relações entre a pessoa, a sociedade e a natureza, é necessário. Um entendimento centrado na multi, inter e transdisciplinaridade, abrindo o campo da fertilidade criativa na melhor acepção do humano. Pensar o novo, escutar as novas possibilidades em termos de conceitos e tecnologias decorrentes, é a resposta mais coerente com a magnitude do desafio civilizacional. Velhas formas de pensar estão na raiz da insustentabilidade. Apenas todo o empenho na direção da lucidez, do pensamento renovado, se não da sabedoria, poderão criar a tensão necessária entre o sonho comum e a força dos interesses que lucram com a insustentabilidade, indiferentes às consequências sistêmicas de sua ação.


Marco Aurélio Bilibio Carvalho, Doutor em Desenvolvimento Sustentável, CDS/UnB e Coordenador do Grupo de Estudos sobre Ecologia e Sustentabilidade do Movimento “2022 O Brasil que Queremos”

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