HUMANIFESTO – REALIDADE E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Por * Eugenio Giovenardi, para o 2022: O Brasil que Queremos – 

Há mais de 40 anos acompanho a regeneração vegetal de 70 hectares do bioma cerrado, no Distrito Federal, Brasil. Convivo com velhas árvores cheias de histórias milenares, extasio-me com miríades de flores e frutos. Esta experiência me incita a comprometer meus contemporâneos a conhecer e compreender a natureza e o planeta que nos abriga.

A abundante literatura ecológica, nos últimos anos, soma-se aos documentos científicos publicados pela ONU, acompanhados de documentários realizados em vários países que expressam a generosa e também a desastrosa relação da espécie humana com a natureza e a biodiversidade.

HUMANIFESTO é uma voz singela que se une à de milhares de escritores, artistas, documentaristas e cientistas na proteção dos elementos essenciais – árvores e água – que sustentam todas as vidas no planeta verde.

Estamos rodeados de realidade. Falta-nos, porém, a percepção dessa realidade. Ela parece zombar de nossa cegueira e sonambulismo diante dos fatos. Os administradores da coisa pública não dão à ecologia e à gestão das riquezas naturais limitadas prioridade preferencial às decisões políticas de investimento a longo prazo.

Vivemos numa época em que a cegueira humana, causada pelo imediatismo consumista, impede de reconhecer a realidade das mudanças climáticas, das alterações físicas, tempestades gigantescas e inundações provocadas por fenômenos naturais, agravados pela múltipla ação modificadora da espécie humana (urbanização, indústria, produção de alimentos). A contaminação espacial e planetária do solo e da água por elementos químicos e orgânicos e pela superexploração e devastação das riquezas naturais afetam a vida humana e a biodiversidade do planeta. As mudanças climáticas são irreversíveis. As que aconteceram há bilhões de anos, as que estão acontecendo e as que virão nas próximas décadas, ou nos séculos seguintes, fazem parte da história cósmica.

Alguns aspectos auxiliam a percepção da realidade:

  • O espaço físico do planeta Terra é limitado. 70%, água e 30%, terra. A espécie humana, no ano 1800, desfrutava de 19 hectares per capita. Em 2019, o espaço por habitante se reduziu a 2,7 hectares. Nesse espaço de 20.700 metros quadrados, cabe a casa, o automóvel, a rodovia, o estacionamento, o aeroporto, a estação ferroviária, a rodoviária, as árvores, os pássaros, a horta, a água, a pluralidade de animais domésticos e os campos de cereais e frutas.
  • A população humana se espalhou por todas as regiões do planeta arrastando consigo bilhões de animais domesticados que consomem grande parte dos cereais produzidos. A sobrevivência da espécie humana conquistou maior longevidade e a reprodução continua crescendo de maneira persistente. A ONU indica um crescimento de 2.2% da população global, alcançando, em 2100, 11 bilhões de habitantes no planeta. É de se ressaltar que uma política demográfica deve alcançar todos os países qualquer que seja seu grau de desenvolvimento humano.

O impacto sobre a natureza, sobre o solo, sobre a água, mesmo com todos os cuidados técnicos possíveis, afeta globalmente o planeta. O consumo dos bens limitados, a extinção de florestas, e consequentemente de seus hóspedes, a queima de combustível fóssil, o uso de pesticidas, a contaminação dos rios e do ar tendem a aumentar com o crescimento do consumo de bens pela população mundial. A extinção indiscriminada da biodiversidade trará consequências desastrosas para a saúde dos seres vivos.

  • A distribuição da água (3% de água doce do planeta) por pessoa reduziu-se de 5,2 bilhões de litros por habitante, em 1800, para 700 milhões de litros/hab, em 2019. Rios e lagos secaram em várias regiões do planeta. Milhares de nascentes foram soterrados pela urbanização e pela produção de alimentos. Os agrotóxicos e antibióticos contaminaram a maior parte das águas superficiais. Grande quantidade de lixo polui solo, rios e oceanos. Algumas geleiras, cujo degelo formava rios para irrigação na agricultura, diminuem seu volume e, em poucas décadas, extensas regiões não serão mais adequadas à produção de alimentos. Além do mais, as chuvas irregulares e os fenômenos naturais extremos estão causando perdas materiais e de vidas no campo e nas cidades.
  • Pouco sabemos da origem da vida no planeta e da espécie humana e, menos ainda, do destino da vida e do universo. Tudo o que a ciência nos diz é que o universo existe há bilhões e bilhões de anos e que estamos rodando no espaço. As pesquisas científicas para conhecer o universo requerem grandes somas de dinheiro, cujos resultados práticos beneficiam a própria ciência e nem sempre atendem às necessidades da vida cotidiana de quase metade da espécie humana.
  • A poluição sólida, líquida, aérea, dos rios, dos oceanos e do solo é uma realidade explícita, visível e de difícil controle, em razão da intensa produção de alimentos e do crescimento gigantesco da urbanização, cobrindo áreas de proteção ambiental. Pássaros, peixes, animais da selva, florestas e pessoas estão contaminadas. Sobrevivem as bactérias, fungos e vírus para cooperar na extinção de milhões de espécies vivas.
  • Embora o uso de aparatos tecnológicos mecânicos e da eletrônica seja de uso massivo, o domínio e o controle da tecnologia estão em mãos de poucos anônimos que decidem como e quando usá-la. A tecnologia reflete também o poder da minoria sobre a maioria.
  • As decisões financeiras para a produção de bens e consumo estão concentradas em bancos centrais de países dominantes e de empresas de capital multinacional a dominar todos os pregões das principais bolsas de transferência de valores de muitos contribuintes de países subdesenvolvidos às mãos de poucos acumuladores de benefícios e lucros descabidos. A desigualdade pode ser configurada em três patamares: os que sobrevivem com um dólar por dia; os que vivem com 10 dólares por dia; os que vivem fartamente com 100 dólares por dia. No patamar de um dólar por dia, estão os analfabetos, as baixas remunerações de trabalho e seus ocupantes usam as poucas oportunidades para chegar aos dez dólares. As oportunidades crescem mais velozmente nos patamares superiores. A velocidade no primeiro patamar é, figuradamente, de um km/h para alcançar à de dez km/h, e esta acelera para chegar próxima ao patamar de 100 km/h. É prudente e urgente inverter a direção dessa tendência readequando a distribuição da riqueza de cima para baixo.
  • O desenvolvimento, a pedagogia e a metodologia da cultura e da educação se apoderaram da espécie humana em todos os países para subsidiar e compartilhar mítica e ilusoriamente os benefícios oferecidos pela guerra econômica e pela aventura do consumo de bens necessários e supérfluos. Gera-se uma identidade igualitária falsa estimulando o acesso de ricos e pobres aos mesmos shoppings e supermercados. A inversão dos patamares por meio de políticas de redistribuição das oportunidades é possível com investimentos prioritários no patamar inferior. O aumento de oportunidades, de produção e consumo com o crescimento persistente da população dependerá também das mudanças climáticas cujos fenômenos extremos afetam o planeta de maneira irregular e imprevisível.
  • As reações diante da real probabilidade de extinção em massa de espécies vivas se fazem por grupos minoritários, disseminados no planeta, com um novo olhar sobre a natureza, sobre a vida e a biodiversidade. As energias politicas das administrações públicas do Estado não se dirigem convincentemente para as reais consequências desastrosas sobre a população. Produzir e consumir são o binômio das prioridades econômicas dos gestores públicos.
  • Gritos revolucionários para proteção e defesa de mananciais, de biomas, de bosques e florestas se espalham ainda imprecisos e pouco ouvidos pelos elaboradores de políticas públicas, especialmente em apoio a sistemas e processos de regeneração lenta de áreas degradadas e da biodiversidade. Percebe-se claramente, na ação humana sobre a natureza, que o tempo da destruição de vidas é curto e o da regeneração da biodiversidade é pacientemente longo. O conceito de regeneração se estende para outras atividades além da recomposição vegetal de uma área. A regeneração é lenta também para ações e procedimentos que visam a reorganizar o tecido social, as decisões econômicas e a mudança de políticas públicas. A regeneração da economia, diante de erros estruturais, de finanças combalidas, de consumo incontrolável, das normas de convivência humana, das relações do homo sapiens com a natureza é lenta e requer muitas décadas para reconquistar o equilíbrio rompido.
  • A realidade é que grande parte das florestas originais foi destruída. Com a extinção de florestas, com a desertificação generalizada pela produção de alimentos, pela urbanização e pela superpopulação mundial persistente, as evidências indicam impacto crescente sobre todos os biomas e especialmente sobre o acesso à água. Cada dia mais a recarga dos aquíferos e as nascentes de rios dependem da irregularidade das chuvas.
  • O decrescimento econômico, rumo ao crescimento zero do uso e consumo de bens oferecidos pelo planeta, requer igualmente reduzir a zero o crescimento da população humana. Infelizmente, o crescimento da população, nos moldes atuais, conduz ao aumento da reprodução animal, estimulada e domesticada. A redução de rebanhos bovinos, ovinos, porcinos, muares e cavalares e de espaços ocupados na produção de cereais e fibras cederia lugar às florestas e à pluralidade de vidas nos campos e nas selvas. A produção biológica e melhor produtividade que combinam processos de regeneração ecológica deverão substituir os tradicionais métodos de  exploração agrícola.
  • A espécie humana está sozinha no planeta. Só ela pode consumir e eliminar o passado do planeta que a abriga. Como destruímos o passado do planeta? Eliminamos mananciais que irrigavam amplas áreas em todos os biomas. Arrasamos montanhas para desentranhar carvão, óleo das pedras para queimá-lo, ouro, prata, diamantes para transformá-los em mercadoria provocadora de guerras insensatas, pobreza, fome, desigualdade entre os integrantes da mesma espécie humana. Cortamos e queimamos árvores garantidoras da paz ambiental e dos cursos de água. Falsificamos a história do planeta e seus feitos ocorridos ao longo de bilhões de anos. Deixaremos um planeta arrasado, sem passado, para nossos descendentes.
  • A queima dos fósseis – óleo das pedras – petróleo – que é senão a destruição do milenar passado do planeta? A eliminação gradativa e segura de imensas jazidas do passado planetário foi estatuída pela espécie humana como fator de progresso e felicidade para seu exclusivo benefício. Vivemos à custa do riquíssimo passado e do depauperado presente do planeta sem prever o futuro dos que nele sobreviverão. Esta constatação é suficientemente forte para causar à espécie sapiens um tremendo choque emocional diante dos bilhões de anos que conformaram o presente-passado do planeta com inimagináveis perspectivas futuras para a continuação da vida.
  • O clamor de crianças e jovens, em defesa da vida e da biodiversidade no planeta, reforça a esperança de se tomarem decisões sensatas no campo econômico, politico, social e cultural adequadas às novas gerações que viverão nas décadas e nos séculos vindouros.

* Sócio Ecólogo, Biocomunidade Sítio das Neves, autor de 23 livros.

 

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