Um pesadelo chamado Brasil

Por Isaac Roitman, Professor Emérito da Universidade de Brasília, em artigo para o Monitor Mercantil em 11/08/2021

 

Vivemos tempos difíceis no Brasil, diria, dramáticos. A pandemia da Covid-19 nos atingiu como um grande Tsunami. Milhares de vidas foram ceifadas. A fome e o desemprego atingiram as classes mais desamparadas e pobres. A violência, especialmente contra as mulheres, é uma cena repetitiva no nosso cotidiano. O racismo e a intolerância prosperam.

Atritos, alguns fabricados, abalam a harmonia dos pilares da democracia. O embate entre os Poderes aponta para uma desagregação no país. A educação e a saúde em frangalhos. A desinformação constante é um grande aliado da ignorância. O desenvolvimento da Ciência e Tecnologia no rumo do retrocesso. Caminhamos rapidamente para sermos um país periférico e colonizado. O desencanto dos jovens, ao pensarem no futuro no Brasil e no mundo, é um atestado de retrocesso da humanidade.

Para complicar mais ainda, essa ameaça das mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta que os oceanos, fontes de vida na Terra, podem se tornar nossos piores inimigos em escala global se nada for feito para conter as emissões de gases do efeito estufa, com efeitos devastadores no aumento do nível do mar que obrigaria o deslocamento de 280 milhões de pessoas. E nesse cenário dantesco somos obrigados a testemunhar a destruição de nossas florestas. Que insanidade.

Segundo o escritor irlandês James Joyce, “a história é um pesadelo de que tento acordar”. É urgente o Brasil acordar e interromper esse pesadelo para não correr o risco e reprisar o mesmo filme nos próximos anos. A persistência da miséria e da desigualdade social é vergonhosa, e é um atestado de incompetência da sociedade brasileira e de seus muitos governos.

O país demanda grandes transformações. Entre elas, uma reforma política sem espaço para políticos picaretas, resgatando a credibilidade política. Temos que atrair para as atividades políticas cidadãos honestos e capazes que, através do debate civilizado, desenvolvam novas ideias e ações virtuosas pelo bem comum.

A democratização dos meios de comunicação é imperiosa. A comunicação rápida e o acesso à informação são instrumentos para aperfeiçoar a democracia e não o contrário. A internet de banda larga deverá ser gratuita para todos, como a televisão aberta e o rádio.

O Brasil é um país privilegiado em seu patrimônio natural, e sua utilização deve ser tema de um debate racional permanente que tenha como pano de fundo um desenvolvimento sustentável. Da mesma forma devemos promover, difundir e preservar o nosso patrimônio cultural que é rico e belo.

A educação pública de qualidade para todos e todas é um pré-requisito para termos um Brasil melhor. Lembremos aqui o pensamento de Anísio Teixeira: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara para as democracias. Essa máquina é a da escola pública”. Só teremos o Brasil de nossos sonhos se a educação básica ter como pilares, a ética, a solidariedade, a liberdade, a autonomia, o pensamento crítico, a competência e a responsabilidade social.

Vamos acordar para construir o Brasil do futuro. E nessa nova e brilhante alvorada é pertinente lembrar as palavras de Juscelino Kubitschek, gravadas e imortalizadas na Praça dos Três Poderes: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã o do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

Vamos também transmitir às gerações futuras a mensagem da inspirada poesia que nos deixou Gonzaguinha em sua música Nunca pare de sonhar: “Ontem um menino / Que brincava me falou / Hoje é semente do amanhã / Para não ter medo / Que esse tempo vai passar / Não se desespere, nem pare de sonhar / Nunca se entregue / Nasça sempre com as manhãs / Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar / Fé na vida, fé no homem, fé no que virá / Nós podemos tudo, nós podemos mais /Vamos lá fazer o que será”. Acorda Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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