O ambiente em verde, não em preto e branco

Artigo de Aldo Paviani, geógrafo e professor emérito da Universidade de Brasília, para o Correio Braziliense em 18/10/2022

 

Nas décadas de 1950 e 1960, que eu lembre, havia nos cinemas filmes em preto e branco.

Na atualidade, os filmes e fotos coloridas são considerados normais e as pessoas não procuram apreciar os clássicos daquelas décadas que poderiam ser dramas ou comédias em branco e preto. Hoje, o entretenimento só é pensado no modelo colorido. O preto e branco parece não ser aceitável e porque já não se produzem filmes nesse modelo. Na atualidade, as cidades deveriam ser coloridas em verde, ornadas com renques de árvores e afeitas a tapetes gramados para que, nelas, as crianças possam brincar a sós ou acompanhadas de seus pais, de cães ou gatos, de preferência.

Estamos tão acostumados ao verde que não vemos se está presente e embeleza a cidade ou ausente e deixa o ambiente feio e árido em todos os recantos do meio urbano.

O ecoambientalista Eugênio Giovernardi escreveu em um post na internet: “As árvores são sempre belas e imponentes por sua arte natural.

Mas foram privadas de um conjunto harmonioso de outras vidas vegetais ou animais que compõem a cadeia trófica e o controle de predadores”.

De fato, a destruição é marca do homem que sempre tenta “domar” a natureza, com ações como queimadas, podas radicais e toda a sorte de medidas que impedem as crianças de hoje terem um mundo em verde e as águas limpas, conforme o afirmado pelo astronauta russo, Yuri Gagarin, ao ver a terra a partir do espaço, em 1961. Disse ele maravilhado “A terra é azul”. Seria ainda hoje?

Talvez não porque a sanha de lucro e a falta de iniciativas públicas ambientais faz a terra ter lagos e rios escuros devido à poluição em muitos recantos do planeta. Em um alerta, Isaac Roitman escreveu artigo no Correio Braziliense, de 14 de outubro último com o título de O homem e a continuidade da vida no planeta em que chama a atenção sobre a destruição do meio ambiente global. Está no texto: “Revisitando nossa civilização, com respeito à preservação do planeta para a conservação da vida, temos que reconhecer, cometemos grandes erros.

A ocupação dos espaços geográficos não leva em conta, sem nos importarmos com o que lá havia”.

E continua, “Grandes áreas de nossos biomas são destruídas causando a extinção de animais, vegetais e micro-organismos”.

De fato, a mídia nos revela ser o Brasil “o celeiro do mundo”, intensificando a exportação de grandes volumes de alimentos, sobretudo soja e milho, mesmo havendo enorme contingente de brasileiros – cerca de 33 milhões – que passam fome. Exporta-se também minério de ferro, celulose e petróleo. Então, se as políticas públicas se voltarem para o lucro das exportações, é tempo de rever essa posição, pois se trata de, em primeiro lugar, alimentar nossos irmãos famintos. Por isso, o lucro das exportações nunca será mais importante do que evitar que nossa população passe fome.

Seria um princípio básico da gestão pública olhar a população e suas necessidades cotidianas, ter três refeições ao dia, por exemplo.

Fala-se muito na qualidade do meio ambiente, sobretudo em época da estiagem, para que se preservem as árvores, que amenizam a atmosfera, dão sombra e ajudam a infiltração das chuvas para os lençóis freáticos. Essas são coisas normais em países que reflorestaram o que foi devastado ao longo da história do povoamento.

Mas, no caso brasileiro, o que se vê é o fogo destruindo as fímbrias do cerrado com a floresta Amazônica por ampliação dos cultivos intensivos de soja e da criação bovina e a venda ilegal de madeira, tudo para o Brasil continuar exportando alimentos.

Veremos por quanto tempo isso se mantém. Avalia-se que a vegetação florestal possui maior valor em pé do que devastada e incendiada. Mas, há os que abrem clareiras nas matas para plantar soja, sorgo ou criar gado, tudo destinado à exportação, ao sabor da ideia de que o Brasil alimenta o mundo. Se isso for verdade, deve-se saber as perdas ambientais para o país, o continente e como isso afeta o regime das chuvas e a manutenção da qualidade de vida dos conterrâneos. Deveremos exportar alimentos, mas antes temos que matar a fome dos milhões de brasileiros.

Se isso não for feito, teremos dois infaustos acontecimentos: alimentamos outros povos, em prejuízo dos que não têm acesso à alimentação básica no Brasil e ainda poderemos ter problemas ambientais por não cuidarmos de preservar a natureza. Considerese que a regeneração do espaço degradado pode levar dezenas ou centenas de anos. Qual país soberano que se submeteria a tamanha e irracional atitude?

Será fundamental manter o verde em toda sua amplitude nos espaços humanizados de nosso vasto território. É o que se deseja e espera.

Deixe um comentário