Educação na infância gera o cérebro do país

Por Dioclécio Campos Júnior, médico e professor emérito da UnB, para o Correio Braziliense em 23/07/2021

 

O cérebro é o órgão primordial da espécie Homo sapiens. Com suas múltiplas e complexas estruturas anatômicas e funcionais, contribuiu decisivamente para o maior avanço mental, intelectual e espiritual da espécie humana, culminando na geração de valores morais, éticos e comportamentais indispensáveis às suas práticas mais construtivas por meio da interação social.

Como bem definiu na sua obra denominada O fenômeno humano, o padre e antropólogo francês Pierre Teilhard de Chardin identificou a dinâmica evolutiva das espécies, promovida pelo fenômeno por ele denominado de “cerebralização”. Vale dizer que a diferenciação cerebral progressiva é um processo sem o qual a nossa espécie não alcança o nível mental, que demonstrou ser capaz de adquirir.

Torna-se bem claro o papel insubstituível de uma educação qualificada e igualitária, destinada a todas as novas gerações como ingrediente fundamental para o seu completo desenvolvimento neuropsicomotor e social. Sem essa tão consistente perspectiva de progresso humano, o tempo passará e nada terá sido feito com o intuito de se construir a mais segura base na qual a sociedade realmente humanista possa ser sustentada.

Por isso, o cenário atual da pandemia que vem dizimando cada vez mais o número de habitantes no planeta não pode deixar de ser considerado como um tenebroso alerta de que a espécie Homo sapiens pode também ser extinta, a exemplo de tantas outras que desapareceram da Terra. Assim sendo, a educação prioritária da primeira infância, período no qual o cérebro se diferencia com padrão único e elevado, é o coerente investimento capaz de blindar a espécie, protegendo-a do risco de desaparecimento.

Os países que decidiram adotar essa importante medida deixaram claro que a dinâmica educacional igualitária e de alta qualidade eleva progressivamente o nível mental e intelectual das novas gerações. Aumenta-se, desta maneira, o denominado potencial cognitivo da sociedade que define a capacidade de aprendizagem dos cidadãos. É assim gerado o correspondente crescimento do capital cognitivo das populações.

Deve-se, também, aplicar o conceito de cérebro a um país. Suas funções são bem visíveis como as virtudes subjacentes ao perfil comportamental interativo, dialogal, altruísta e essencialmente construtivo de uma cidadania. Quem abordou bem esse conceito, de forma clara e objetiva, foi o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek, pessoa solidamente educada e comprometida com as causas sociais. O seu legado para o avanço humanista do Brasil é do mais alto grau de visibilidade em favor da população do país. O projeto da nova capital, que ele foi capaz de implantar durante um mandato de cinco anos, é internacionalmente reconhecido como referência criativa e humana, que não poderá jamais ser retirado da história brasileira. É classificado pela Unesco como “Patrimônio Cultural da Humanidade”. Pouco antes de inaugurar a cidade de Brasília, denominada Capital da Esperança, Juscelino registrou seu sublime sentimento: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

Outro exemplo da criação do cérebro nacional vem da grande história da União Europeia. Com efeito, quando ocorreu a revolução russa para a implantação do modelo estatal do comunismo, o intuito era eliminar as desigualdades sociais. Países da Europa não apoiaram a iniciativa, embora concordassem com o princípio da igualdade a ser promovido, não imposto. Já possuíam experiência bélica cujos efeitos destrutivos prevaleciam como metas devastadoras. Por isso mesmo, optaram por um projeto de “social-democracia”, cujo propósito era a redução das desigualdades humanas por meio da construção progressiva de uma sociedade baseada em princípios humanistas capazes de promover, em clima de paz, um padrão médio uniforme das suas populações.

Tornou-se comprovado o acerto dessa postura das nações da Europa que vislumbraram o horizonte pacífico da sociedade igualitária. A ideia de integração dos diversos países europeus gerou o grandioso cérebro da União Europeia. É uma referência educacional para a humanidade. O Brasil não pode seguir patinando na lama da falta de educação. Precisa construir seu cérebro com Ordem, Progresso e Paz para desfazer a desigualdade humana de um país descerebrado. Educação de qualidade é o único caminho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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