Criança é a ressurreição do passado no útero do presente

Por Dioclécio Campos Júnior, médico e professor emérito da UnB, para o Correio Braziliense em 12/08/2021

 

Não se pode mais ignorar o significado e a origem da sociedade da espécie humana. Conceitos que se desdobram das evidências científicas relativas a um tema tão relevante merecem o devido respeito e a sensata utilização dos seus fundamentos para a construção do futuro, coerente com a história evolutiva da espécie. Caso contrário, o desprezo para com o rico conhecimento sobre o cerne da humanidade acentuará a degradação da estrutura social, mantendo a terrível desigualdade humana que passou a ser a paisagem infernal de grande número de países, entre os quais o Brasil.

Em conformidade com provas científicas, obtidas ao longo do tempo, a espécie Homo sapiens, à qual pertencemos, teve sua origem na região leste da África há cerca de 200 mil anos. Veio da rota evolutiva dos chamados primatas, entre os quais o chimpanzé, que passaram da condição de quadrúpedes à de bípedes, razão pela qual foram denominados Homo erectus. Traduz, sem dúvida, uma mudança progressiva que permitiu às suas novas gerações erguer a cabeça, manter seu olhar para frente, usar livremente as mãos e os dedos, e expandir o cérebro graças à ampliação do volume do crânio.

Com o desenvolvimento das pesquisas da ciência genética, foi possível configurar o chamado genoma de cada espécie, definido como a característica dos genes que compõem a sua marca genética. No caso específico da nossa espécie, foi assim possível esclarecer dúvidas interpretativas de tão relevante tema graças a análises realizadas em restos materiais dos fósseis descobertos em distintas escavações. Assim sendo, trabalhou-se com a hipótese de decisiva mutação genética que transformou o Homo erectus em Homo sapiens por meio da denominada cerebralização da espécie, configurando-a como a mais inteligente da época.

Ademais, comprovou-se que várias gerações de seus integrantes migraram para outros recantos do Planeta já dotados da dinâmica interativa por meio da qual se relacionavam com outras espécies locais e desenvolviam ações construtivas. Consolidou-se, dessa maneira, a presença do Homo sapiens na maioria das regiões do Planeta, confirmada pela estrutura genética específica que a caracteriza e pequenas modificações resultantes dos efeitos do meio ambiente em que habitavam e viviam. Vem daí a história da humanidade, construída com a inteligência da nova espécie, cujo marco foi a era da agricultura, que passou a fundamentar o surgimento coerente da vida em sociedade.

As novas gerações sempre trouxeram, à fase do seu presente, os mais claros sinais do passado, que se sucederam ao longo de sua história. Bons exemplos são aqueles que podem ser identificados em cada novo ser humano que vem ao mundo. São sinais comprobatórios das mudanças genéticas corporais e mentais acima mencionadas. Com efeito, ao deixar o útero materno, o recém-nascido avança na adaptação ao novo meio ambiente graças às características do passado incorporadas ao seu respectivo genoma.

Vale a pena citar os chamados reflexos arcaicos, inerentes ao sistema físico e mental, que reproduzem importante parte da história de formação da nova espécie. São exemplos a flexão das mãos e dos pés em resposta aos contatos; o reflexo de Moro, ou do abraço, desencadeado por ruídos ou toques diretos; e a marcha automática estimulada pelo contacto dos seus pés com o solo e o corpo sustentado pelo adulto. O recém-nascido já possui a capacidade de sugar o seio materno que, além de lhe assegurar acesso à nutrição adequada, pode lhe propiciar a mais estreita relação de afeto e amor para com uma pessoa em cujo útero viveu a primeira etapa da sua existência.

Nos meses seguintes, seu desenvolvimento é notável. Mantém-se sentado, com apoio, no sexto mês; engatinha entre seis e 10 meses; coloca-se de pé com apoio entre sete e nove meses; em seguida, começa a caminhar entre 12 e 14 meses. Avoluma-se o seu crânio e cresce o cérebro até o sétimo ano. De 2 a 3 três anos já consegue se comunicar espontaneamente pelo idioma nativo, uma prova da inteligência do Homo sapiens. Reproduz-se, assim, o passado no qual os primatas quadrúpedes tornaram-se bípedes.

Em síntese, a sociedade do presente deverá se comprometer com a importante causa da espécie Homo sapiens, que é o projeto coletivo e igualitário de construção do futuro. Caso tamanha evidência da nossa missão social não seja percebida, a sociedade seguirá no desleixo que levará ao desaparecimento da espécie no Planeta. Portanto, a sagrada verdade indica que a criança é a ressurreição do passado no útero do presente.

 

 

 

 

 

 

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