À procura da Brasília perdida

Artigo de Isaac Roitman, Professor emérito da UnB e membro da Academia Brasileira de Ciências, para o Correio Braziliense em 11/04/2022

 

O título do artigo é o do mais recente livro do filósofo e sociólogo Eugênio Giovenardi, gaúcho, que reside em Brasília desde 1972. Nessa obra, À procura da Brasília perdida. Cidades e ecossistemas (editora Kelps), com simplicidade e sensibilidade, o autor chama a atenção que no espaço urbano amplia-se a expectativa da preservação e interação social de todos os seres vivos da natureza, humanos e não humanos, num ambiente propício de paz.

Algumas reflexões importantes são colocadas. Uma delas é se a realidade arquitetural de Brasília ficará estacionada no tempo. Talvez, não seja a mesma Brasília que saiu da prancheta de Lucio Costa. E, a da prancheta, pode não ser a que o espaço modificado recebeu. Qual das Brasílias se perdeu? É pertinente lembrar as palavras do genial arquiteto Oscar Niemeyer: “Se Brasília não tiver controle, seu caminho será o das grandes metrópoles e o homem esmagado e desmerecido”, que é sempre ressaltado pelo notável geografo Aldo Paviani.

A cidade e a convivência humana não subsistem sem comprometer-se com o conjunto de vidas que respiram ao seu redor. Os elementos físicos estruturais que compõem um ecossistema são: água e aquíferos, arborização nativa do bioma cercadas de vidas visíveis e invisíveis, vegetação programada e selecionada, dejetos naturais, lixo sob a forma sólida, liquida e gasosa originada de seus habitantes. Esses elementos estão umbilicalmente ligados aos novos habitantes humanos do espaço geográfico. Eles definem, com seu comportamento e uso do solo, o estilo da expressão visual urbana. A natureza, o ecossistema, dentro do qual necessariamente sobrevivemos, foge com frequência do radar do cidadão, do administrador, do urbanista e da indústria da construção. As cidades e, em especial, Brasília, reclamam ações preventivas específicas para adaptar-se às mudanças climáticas em curso.

No capítulo Diálogos dos ecossistemas, Giovenardi, aponta as longas distâncias percorridas pelos cidadãos, para o seu trabalho, prédios púbicos da administração, bancos, restaurantes, clubes e centros de arte e diversão. A contaminação permanente do ar e das águas é um exemplo da separação entre o cidadão e o ecossistema. Os habitantes e os administradores urbanos, ao longo de 60 anos, ao que parece, ainda não tomaram consciência de suas funções cidadãs e de sua interação com o meio físico e a pluralidade de seus moradores. Ao ver milhões de vidas vegetais e milhares de olhos d’água serem sepultados sob o casco dominador de avenidas, viadutos e edifícios arrogantes é de se lamentar o alto grau de indiferença humana com a sua casa natural. É urgente criar um modelo de administração capaz de conciliar o (eco) sistema urbano, o (eco) sistema social e cultural e o ecossistema natural.

A desigualdade social, cultural e ecológica resulta da concepção, da organização do ser humano e da realidade urbana. Consolida-se na maioria das cidades e, de maneira clara no território brasiliense. A desigualdade se manifesta nos meios de transportes, no setor habitacional, nos salários, na atenção médica ou jurídica, na educação, na distribuição e acesso à água potável e à rede de esgotos, no acesso à cultura e espaços púbicos, entre outros. A desigualdade estrutural, assim como a discriminação social e cultural devem ser enfrentadas com atitudes e ações políticas de toda a sociedade.

Obrigado, Eugênio Giovenardi, por abrir os nossos olhos para enxergar os desafios e sugerir as soluções para que Brasília seja um espaço feliz de futuras gerações. Seu livro é um presente de comemoração dos 62 anos de nossa cidade, e também o centenário de Darcy Ribeiro e os 60 da nossa querida Universidade de Brasília. O último capítulo do livro é uma suposta carta das netas Luiza e Laura ao autor, escrita no centenário de Brasília em 21 de abril de 2060 onde descrevem a cidade — parque sonhada por seus fundadores. Temos todos um compromisso com os fundadores da capital que deve ser uma cidade laboratório para espalhar por todo o Brasil iniciativas virtuosas. É pertinente lembrar o pensamento de Juscelino Kubitschek feito em 1956: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

 

 

 

 

 

Image by Marcelo Bastos from Pixabay

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