Somos todos interinos

Isaac Roitman, professor emérito da Universidade de Brasília e presidente da Comissão do Movimento 2022 – “O Brasil que queremos”, escreve para o Correio Braziliense

O adjetivo interino tem pelo menos três significados: passageiro, provisório e temporário. Recentemente, tem sido muito utilizado para os que exercem posições provisórias na falta ou impedimento do servidor efetivo quer seja no cargo da presidência da República, do governador de um Estado ou na suplência de um senador. O antônimo de interino é permanente ou definitivo. As reflexões que se seguem nada têm a haver com a crise moral, política e econômica em que vivemos e que certamente serão superadas. Elas são inspiradas na interinidade do ser humano na viagem que fazemos na nave-mãe chamada Terra.

Biologicamente, somos todos interinos, pois nascemos, vivemos e morremos. No reino animal, somos um dos seres que demora mais tempo para construir a independência e a autonomia para as necessidades vitais. Lentamente, já adultos, construímos uma visão de mundo. No entanto, certas perguntas, que todos fazemos em alguma fase de nossa vida, como de onde viemos, qual o significado da vida, para onde vamos, não têm uma resposta definitiva. Ficamos então inseguros, pois é preciso ter algo em que acreditar para dar suporte a nossa existência. Algumas pessoas, têm a religião como suporte absoluto.

Outras encaram a vida se apegando ao ceticismo materialista. Algumas enveredam na política e agem orientadas por uma ideologia. Outras são simples espectadoras e mergulham em uma vida passiva, sem pensamentos e escravos de uma vida guiada por valores equivocados e por falsos profetas. Viver não é ciência exata, é a arte de fazer escolhas. O principal objetivo da vida de cada um é conquistar a própria felicidade e ser um cúmplice na construção da felicidade coletiva.

Para ser feliz, cada pessoa deve aprender a conceber os seus próprios caminhos. A felicidade é estar e se sentir em sintonia com o mundo. Lembremos Carlos Drummond de Andrade: “Que a felicidade não dependa do tempo, nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro. Que ela possa vir com toda simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos. Que tenham amor ou então sintam falta de não tê-lo. Para que tenhamos certeza de que: ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.

Os problemas humanos têm sua base no modelo e na forma dos relacionamentos. Uma boa fórmula é ter a satisfação das necessidades ao seu alcance, reduzindo os seus desejos. Na dimensão individual somos interinos, temos um prazo de validade. Porém, como espécie, podemos ter perenidade. No entanto, se a raça humana não se aperfeiçoar minimizando a sua maldade, sua mesquinhez e ignorância, ela também não sobreviverá. O direito da existência do homem está diretamente ligada aos valores e às virtudes e tornar-se todos os dias um ser humano melhor.

Compreender, querer, perdoar é uma tríade importante para o relacionamento ideal. Devemos aceitar o diferente, isto é, sermos tolerantes e lembrar Tomás de Aquino que considerava a tolerância o mesmo que a paciência que nada mais é que o bom humor ou o amor que nos faz suportar as coisas desagradáveis.

A preservação do planeta para as próximas gerações é prioritária. É preciso ter a consciência de utilizar os recursos naturais com equilíbrio, entender o valor da preservação ambiental, para que o planeta proporcione qualidade de vida no presente e para as futuras gerações. As atitudes, a educação, as ações e a conscientização devem ser as armas para a preservação. Ser ambientalmente responsável é promover a união harmônica entre o desenvolvimento econômico e o social do homem com a natureza.

Além disso, precisamos, de uma vez por todas, conquistar a paz global. O mundo de nossos dias é ameaçado pelo colapso e a destruição. Já temos armas de sobra para cometer essa insanidade. Vivemos um mundo com violências, injustiças, desigualdades e inversões de valores. É preciso conquistar mentes e corações e estabelecer novos paradigmas para termos um mundo novo com amor e arte, que tornam a existência tolerável como apontado por William Somerset Maughan, que também afirmou, “a arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”. Individualmente, somos todos interinos, mas a existência humana é eterna. Pensar no bem-estar das próximas gerações é o nosso maior compromisso. Vamos todos nos compromissar com a eternidade.  


Isaac Roitman é também coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq e membro titular da Academia Brasileira de Ciências; e presidente da Comissão Geral do Movimento 2022, O Brasil que queremos.

Deixe um comentário