Sem educação não há saúde, sem saúde não há educação

Dioclécio Campos Júnior, médico e professor emérito da UnB, para o Correio Braziliense, em 21/06/2020

 

O avanço da pandemia em nosso país tem sido cada dia mais preocupante. A sociedade revela sintomas de degradante desequilíbrio socioeconômico e comportamental. Com efeito, a transmissão da covid 19 está abalando o alicerce da convivência humana. As medidas referenciais, capazes de reduzir o enorme impacto, precisam ser inteiramente aplicadas.

Conceitos e informações verdadeiros referentes à saúde devem ser compartilhados com a população. O procedimento faz parte da educação coletiva, que não pode mais ser desprezada no país. A cultura do imediatismo há de ser revertida em benefício da cidadania. O aumento da qualidade de saúde não se restringe ao aqui e agora. Por isso, a consciência do cidadão merece respeito e estímulo adequado.

A Organização Mundial de Saúde já havia chamado a atenção para importante mudança nos indicadores pertinentes ao tema. Deixou claro que os mais altos índices de mortalidade no mundo atual já não são produzidos pelas doenças transmissíveis, ou seja, infecciosas. Prevalece a mortalidade causada por desequilíbrios ambientais, que vêm sendo intensamente ampliados no planeta. Passaram a ser agentes etiológicos não infecciosos, responsáveis por grande número de doenças, com elevado índice de letalidade.

São exemplos a poluição atmosférica urbana e o tabagismo, que estão na origem do câncer pulmonar, da doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc) e das doenças coronarianas; o estresse crônico, também denominado estresse tóxico, gerador de distúrbios orgânicos potencialmente graves; o consumo de drogas ilegais, que está na origem de enfermidades com risco de morte; e os acidentes de trânsito, cujo índice de mortalidade é muito alto no país.

As taxas de letalidade das doenças contagiosas persistem, embora já sejam inferiores às das enfermidades não transmissíveis. Vale ressaltar que as doenças cardiovasculares e os acidentes vasculares cerebrais estão na origem do maior grau de mortalidade nos tempos atuais. Em outras palavras: as más condições do meio ambiente em que vivem as pessoas precisam ser revertidas em favor do direito ao bem-estar físico, mental e social, que é a síntese da saúde.

Outro conceito que não pode ser subestimado é o da esperança de vida ao nascer. Em nosso país, já chegou a 76 anos. Tendo por referência esse importante indicador, há de se considerar que, dependendo da idade em que ocorre a morte, o indivíduo perde anos potenciais de vida. O exemplo mais contundente é o da mortalidade infantil. No Brasil, o número de crianças que morrem antes de completar um ano de vida é de 12 para cada 1.000 nascidas vivas. Anualmente, nascem cerca de 3 milhões de crianças. Logo, 36 mil delas perdem a vida no primeiro ano. Como, ao nascer, a sua esperança de vida era de 76 anos, ao todo são 2,736 milhões de anos de vida potencial perdidos a cada ano pelas novas gerações da população brasileira. No caso da covid-19, até agora houve quase 50 mil óbitos, dos quais 70% acima de 60 anos de idade. Assim, a perda do tempo de vida potencial de cada um é, no máximo, de 16 anos, bem menor do que a resultante da mortalidade infantil.

Não há dúvida de que a pandemia se mostra impactante na capacidade contagiosa e no índice de letalidade. Contudo, o número total de óbitos produzido anualmente pelos agentes etiológicos não infecciosos alcança cifras tão ou mais expressivas do que as do vírus.

Torna-se claro que a mortalidade infantil é responsável pela maior perda do potencial de vida da população. Suas causas estão fundamentalmente baseadas na falta de cuidados adequados durante a gestação; baixa qualidade da nutrição; declínio dos índices de cobertura vacinal; famílias desestruturadas e estressantes; falta de recursos médico-hospitalares apropriados à faixa etária; e baixo nível de conhecimento sobre as sólidas razões que justificam a prioridade absoluta da assistência a ser dispensada à infância.

Diante do exposto, confirma-se o princípio de que, sem educação, não há saúde; e, sem saúde, não há educação. É, pois, inadiável a adoção de medidas cabíveis e coerentes com essa lógica fundamental, que deve ser vista como a bússola capaz de indicar o rumo para o progresso social indispensável.

As informações e conceitos abordados são comprobatórios de que, se esse autêntico princípio não for adotado como base inegociável das ações de todos os governos, as pandemias – não apenas infecciosas – continuarão causando grandes estragos, e a sociedade não terá a chance de superar o atraso em que vive.

 

 

 

 

 

 

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