Se queres a paz, trabalha pela Justiça

*Por José Geraldo, para o Correio Braziliense –

Com esse apelo, o papa Paulo VI lançou a Mensagem para celebrar o V Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro de 1972. Nesse convite, o pontífice quis, antes de tudo, mobilizar para a prática da Justiça: “A paz será obra da Justiça”. E repetimo-lo hoje com fórmula mais incisiva e dinâmica: “Se queres a paz, trabalha pela Justiça””.

Para o papa Paulo VI, conforme a mensagem, “trata-se de convite que não desconhece as dificuldades para praticar a Justiça: para a definir, num primeiro momento, e para a atuar, em seguida; o que não será nunca possível, sem alguns sacrifícios do próprio prestígio e dos próprios interesses”.

A mensagem orientada pelo espírito do Concílio Vaticano II, ao conclamar para a ação que realiza a paz por meio da Justiça, já vinha precedida de uma institucionalidade pastoral que favorecesse essa atuação, se considerarmos a criação da Comissão de Justiça e Paz, gestada  segundo esse espírito.

Diz o texto da Gaudium et Spes (1965) no número 90: “Considerando a imensidade de sofrimentos que atormentam ainda hoje a maior parte do gênero humano e para fomentar em toda parte a justiça e o amor de Cristo para com os pobres, o Concílio julga muito oportuna a criação de um organismo da Igreja Universal com o fim de despertar a comunidade católica para a promoção do desenvolvimento das regiões empobrecidas e da justiça entre as nações”.

Inspirada no clima do Vaticano II (1962-65), na Populorum Progressio (1967), sob a influência da Conferência de Medellin (1968), a Igreja no Brasil, através da CNBB, criou, em 1968, com sede no Rio de Janeiro, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, órgão subsidiário à Conferência episcopal, com a vocação de ser um órgão de estudo e ação com a finalidade de defender e promover a dignidade da pessoa, colaborar para edificar a paz e assegurar a presença dos cristãos frente à questão social, a  partir do Evangelho e do Ensino Social da Igreja num momento delicado da realidade brasileira vivendo a ditadura militar.

Daí surgem as Comissões Regionais de Justiça e Paz no Brasil e, depois, as comissões das Igrejas locais ou diocesanas, já no clima das posteriores Conferências latino-americanas de Medellin (1968) e Puebla (1979), e também por elas influenciadas. A Comissão de Justiça e Paz de Brasília seguiu esses balizamentos, quando de sua criação em 1986.

Em 2020, a Arquidiocese de Brasília completará 60 anos de criação. Para comemorar essa data significante, eventos estão sendo realizados durante este ano de 2019, contando com a participação dos movimentos, pastorais e comunidades paroquiais da arquidiocese.

A Comissão Justiça e Paz de Brasília, incorporando-se a essas comemorações, atribui a sua  Conversa de Justiça e Paz, de 4/11/2019 (19h30, na Cúria Metropolitana,  evento com transmissão ao vivo pelo perfil da Comissão Justiça e Paz de Brasília no Facebook), também em celebração aos 33 anos de sua fundação, com o tema “A Dimensão Social da Arquidiocese de Brasília”.

O evento, presidido pelo cardeal arcebispo de Brasília, Dom Sérgio da Rocha, permite apresentar as motivações e diretrizes que serviram de base para institucionalização da comissão na estrutura da arquidiocese, ocasião para oferecer  breve histórico da CJP-DF em Brasília, ao longo de seus 33 anos de atuação, com depoimentos de personalidades que lideraram esse processo, bem como de pessoas que foram apoiadas pelas ações da comissão.

Oportunidade, enfim, nesses tempos conturbados, para nos fortalecermos no compromisso com a causa da Justiça, erigida à condição de rosto da misericórdia, nos termos postos pelo papa Francisco na Misericordiae Vultus, a Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, ela também um apelo para realizar a paz como trabalho da Justiça.


*JOSÉ GERALDO DE SOUSA JUNIOR – Ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB), é membro da Comissão Justiça e Paz de Brasília

Deixe um comentário