Por que apoiar pesquisas científicas

*Por Aldo Paviani, para o Correio Braziliense –

A pergunta acima pode ter respostas óbvias, mas nem todas estão à nossa disposição. Desde a criação de universidades na Europa, ao lado da educação superior, a pesquisa dos cientistas foi empregada para dar suporte aos conhecimentos e possibilitar avanços técnico-científicos e inovações. Por essa razão, as ciências chegaram onde estão. A cada avanço, surgem necessidades de novas pesquisas. Os progressos se comparam à subida de escadas enormes: cada degrau enseja mais descobertas e novos degraus são galgados. Por isso se requer investimentos procedentes de agências públicas ou de empresas privadas.

Na área da saúde e de técnicas de locomoção para deficientes, há exemplos trazidos pela mídia: “Esperança contra o câncer terminal”, em que um “linfoma não Hodkings” pode ser debelado no Brasil por terapia “inédita na América Latina”, que somente foi atingida pela colaboração de muitos cientistas e trabalhos empíricos para modificação genética. O beneficiado foi um homem de 63 anos, que chegou a engordar após o tratamento. A cura, talvez, possa ser confirmada dentro de três meses. Para avançar nas pesquisas, são necessários mais investimentos.

Outro caso nos mostra que criança de 8 anos, portador de deficiência nas pernas, pode caminhar com a ajuda de prótese de fibra de carbono e resina plástica, especialmente desenvolvida para ele, com a vantagem de os materiais utilizados serem de baixo peso e custo. Com isso, a qualidade de vida do menino mudou e ele pode “dançar a catira na escola” com os colegas de classe. Pode-se imaginar o que era a vida do estudante sem a prótese: ele tinha que se “arrastar apoiado nos joelhos para se locomover em pé”. Nesse caso, as pesquisas que levaram o garoto a caminhar e correr dependeu de trabalho de fisiatra e de técnico em próteses. Os custos, não muito elevados, foram cobertos pelo SUS. A medicina tem oferecido surpreendentes progressos no Brasil e ao redor do mundo.

Em outro patamar de investigação, recentes prêmios Nobel foram dados a três pesquisadores. Segundo noticia o Correio Braziliense, os premiados em química foram um americano, um britânico e outro japonês. Eles tornaram o “mundo recarregável”. O feito, que tornou as pessoas mais próximas umas das outras, foi o desenvolvimento da bateria de lítio, que está em enormidade de objetos que utilizamos no dia a dia, em tablets, celulares, microcomputadores etc. O invento é utilizado pelos astronautas em voos orbitais; nas indústrias, em certas fases da produção com menor uso de combustíveis fósseis; nas aeronaves, em seus voos cada vez de maior alcance e com menor consumo de energia e iluminação mais durável. Logicamente, é incontestável o grande retorno dessas descobertas, mesmo porque, em alguns anos, o automóvel do futuro será movido a eletricidade, armazenada em baterias de íons de lítio, que já estão sendo usadas nos carros híbridos, com a vantagem de não ter que ficar horas num posto para a recarga. Por enquanto, temos combustíveis fósseis. Mas, na falta deles, é alentador saber que a eletricidade autogerada moverá os veículos de todos os tamanhos sem causar a poluição atmosférica e o aquecimento geral do planeta.

Na entrega do Prêmio Nobel de Física, divulga-se que outro trio de cientistas realizaram descobertas que “avançam na compreensão do cosmo” e podem “desvendar se há vida fora da Terra”, isto é, se há seres vivos nos exoplanetas. O planeta gasoso descoberto pelos astrofísicos premiados é do tamanho de Júpiter, que, por sua vez, é mais de mil vezes maior que nosso planeta. As descobertas poderão ser mais surpreendentes na próxima década com o lançamento do supertelescópio espacial James Webb. Com isso, estaremos mais perto de saber se há vida em outras galáxias. Algo que fascina os cientistas e compensa os milhões de dólares investidos.

Na concessão do Prêmio Nobel de Economia, três cientistas foram contemplados por estudarem formas de combate à pobreza. Os premiados são um indiano, uma franco-americana e um norte-americano. Os três advogam que a pobreza diminui com investimentos em saúde e educação. Aplicaram seus estudos na África e na América Latina para observarem como as políticas públicas, em educação e saúde, reduzem as desigualdades, sendo a pobreza problema econômico a ser resolvido. Pode-se antever que os investimentos em saúde e educação trarão milhares de brasileiros para o sistema de produção. As pesquisas indicarão o caminho a seguir e, por isso, necessitam de recursos do poder público e do apoio de investimentos privados. Os exemplos reforçam a necessidade de pesquisar.


*ALDO PAVIANI – Geógrafo e professor emérito da UnB, membro do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais e do Núcleo de Estudos do Futuro/Ceam/UnB

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