Plano Anísio Teixeira para reconstrução nacional através da ciência

Por Isaac Roitman, professor emérito da Universidade de Brasília, em artigo para o Monitor Mercantil em 28/08/2020

 

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) é uma das 3 grandes entidades estudantis, que congrega os estudantes de pós-graduação (mestrandos e doutorandos) tendo como parceiras a União Nacional de Estudantes (UNE), que congrega os estudantes universitários da graduação, e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), que congrega os estudantes do ensino médio.

A ANPG lançou recentemente o Plano que utilizei como título desse artigo que é também conhecido como Plano Emergencial Anísio Teixeira para a ciência brasileira. A iniciativa é louvável e pertinente. Destaco dois aspectos.

O primeiro é que na pandemia da Covid-19, a ciência conquistou espaço na mídia, e mesmo os incrédulos da ciência torcem para o desenvolvimento de vacinas para a prevenção da doença ou a obtenção de um produto para a sua cura. Em outras palavras, acreditam na ciência.

O segundo é que presenciamos uma iniciativa de jovens que é ousada no fortalecimento da ciência e tecnologia do Brasil. Historicamente os jovens tiveram um papel relevante nas grandes transformações sociais e políticas do planeta. Agora a juventude brasileira exerce esse papel histórico. Que maravilha.

O projeto traz um conjunto de iniciativas que a entidade considera essenciais para a retomada do desenvolvimento econômico tendo por base a valorização da ciência, tecnologia e inovação. Entre as medidas contidas no plano está a concessão de 150 mil novas bolsas de mestrado e doutorado. Assim, seria possível expandir o número pós-graduandos e prorrogar as atuais bolsas da Capes e do CNPq pelo prazo de um ano, necessário em virtude da pandemia, além de recuperar os benefícios que sofreram cortes.

Outra reivindicação é o reajuste nos valores das atuais bolsas, que se encontram há 7 anos inalterados. Essas ações reverteriam a tendência de enxugamento da pós-graduação e abririam perspectivas para que novas gerações de mestres e doutores pudessem se formar.

A proposta prevê ainda que sejam concedidas 50 mil bolsas pós-doutorado, visando reverter o fenômeno da “fuga de cérebros” – estudantes sem perspectiva profissional forçados a buscar fora do Brasil as condições para fazer ciência. Em um primeiro nível, há migração de brasileiros que são recrutados pelos países desenvolvidos com ofertas e condições melhores para produção científica fora do Brasil.

Por causa da emigração de profissionais qualificados, apenas no intervalo de um ano, o Brasil caiu para 80° posição em competitividade no mundo e de 45° para 70° no item de criação, retenção e atração de novos talentos. Ou seja, o Brasil investiu recursos na formação de quadros, e no final, eles acabam contribuindo não para o desenvolvimento brasileiro, mas para o desenvolvimento de outras nações.

A ANPG aposta na combinação de pressão da sociedade e articulação política no legislativo para obter conquistas. O Plano Anísio Teixeira será apresentado a partir de uma série de projetos de lei no Congresso Nacional, alguns já protocolados e outros em fase de elaboração, e impulsionado por um abaixo-assinado eletrônico para coletar milhares de assinaturas de apoio.

“A situação econômica e social do Brasil é crítica. O Plano Emergencial Anísio Teixeira visa a reconstrução nacional tendo a valorização da ciência como um dos vértices para um novo projeto de desenvolvimento. Sem a indução do Estado, planejamento e investimento público não haverá saída para uma crise dessa gravidade”, defende Flávia Calé, presidenta da ANPG.

As fontes de recursos para o projeto, na opinião dos pós-graduandos, podem vir do pré-sal e da liberação dos recursos represados do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. “Para um programa arrojado de valorização da ciência é preciso prioridade política, planejamento de médio e longo prazos e fontes de recursos.

Parabéns, ANPG, pela inciativa e por homenagear o inspirador do Plano, o notável educador Anísio Teixeira. É também pertinente relembrar o pensamento de George Bernard Shaw: “Tudo o que os jovens podem fazer pelos velhos é escandalizá-los e mantê-los atualizados.”

 

 

 

 

 

 

 

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