Otimismo e pessimismo

Por Cristovam Buarque, professor emérito da Universidade de Brasília –

Faz um mês, meu amigo Mário Nelson me ligou de Salvador e fez uma pergunta direta: “Você está otimista ou pessimista?” Respondi que era preciso considerar três diferentes planos espaciais – pessoal, nacional e mundial – e dois níveis temporais: no curto ou longo prazo.

Estou otimista no curto prazo do plano pessoal. Mas, aos 75 anos, é difícil manter o otimismo no médio, e impossível no longo prazo. Temo o impacto ainda em vida de o Brasil continuar na decadência dos últimos anos e cair na inflação se não fizermos as reformas necessárias de que o país precisa.

No plano nacional, ao contrário, estou pessimista no imediato e otimista no longo prazo. Não vejo como o governo vai nos conduzir a uma sociedade tolerante, justa e sem corrupção; nem para uma economia eficiente e rica. Mas temos razões para otimismo no longo prazo, porque o Brasil é muito maior do que o governo.

O Brasil tem tudo para se recuperar se aproveitarmos a grande chance política graças à perda das ilusões tanto com o populismo atrasado e insustentável quanto com o “outrismo” que decidiu eleger qualquer coisa e qualquer pessoa desde que fosse diferente. O otimismo surge com a esperança de que o fim das ilusões e a percepção da catástrofe convençam eleitores e eleitos de que não se constrói justiça social sobre economia ineficiente, de que surjam forças capazes de ganhar eleições e contar com apoio para uma estratégia de longo prazo.

A perda de ilusões com os populistas e os outristas pode nos convencer de que não devemos continuar a disputa para decidir se, com uma economia ineficiente, é melhor caminhar para o abismo com o pé direito ou com o pé esquerdo, nem vale a pena uma economia eficiente sem justiça social. Finalmente, descobrirmos que tanto a eficiência econômica quanto a justiça social dependem, sobretudo, da educação com qualidade para todos, coordenada por governos com responsabilidade.

É possível ser otimista para pensar que o desastre ao redor e o fracasso das alternativas utilizadas até aqui permitirão ao Brasil encontrar coesão no presente e um rumo certo para o futuro. Com esse otimismo no longo prazo, contando com uma economia eficiente, acredito ser possível consolidar a proposta de um Brasil com um piso social, ninguém abaixo dele; um teto ecológico, ninguém consumindo acima dele, e, entre esses dois níveis, uma escada social em que todos possam ascender conforme seu talento, persistência, educação, graças à máxima igualdade no acesso à educação e à saúde.

A pedagogia da catástrofe (aprender com a tragédia e com o pessimismo do curto prazo para ter otimismo no longo) pode levar à realização do que hoje parece difícil. Essa mesma pedagogia pode permitir ao Brasil descobrir que nossos problemas, apesar de muitas causas, decorrem sobretudo de duas desigualdades: da nossa educação em relação a outros países e do acesso diferenciado conforme a renda da família, o que impede o aproveitamento do conhecimento de dezenas de milhões de cérebros deixados para trás.

No caso da humanidade, sou otimista no curto, mas pessimista no longo prazo. A pedagogia da catástrofe terá mais dificuldades para funcionar devido ao tamanho do desastre ecológico, que já dá sinais de consequências irreversíveis; e devido ao risco e possibilidade de que a desigualdade social também pode passar do ponto do não retorno. Os seres humanos ficarem tão desiguais na renda, no consumo e no acesso às técnicas médicas e biológicas que se dividirão em neo-homosapiens, super-homens graças à ciência e à tecnologia, e neoneandertais, uma subespécie à margem dos benefícios do conhecimento.

Quando o homo for dividido em dois homos distintos, o conceito de desigualdade desaparecerá por falta de sentimento de semelhança que ainda resiste entre os ricos e os pobres da mesma espécie homo. O pessimismo vem também da percepção de que as democracias, sendo nacionais (e nada indica que teremos uma democracia humanista-planetária, uma humanocracia), o risco de catástrofe possa levar (como parece estar acontecendo) a uma preferência por opções populistas nacionais e imediatistas, com soluções individuais para poucos no presente, agravando a catástrofe planetária no futuro.

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