O xadrez político e a natureza humana

*Isaac Roitman

A importância do jogo de xadrez para o desenvolvimento humano tem sido objeto de estudo das mais diferentes abordagens: filosóficas, sociológicas, psicanalítica, psicológica e pedagógicas. Ele também é considerado como um excelente instrumento na formação de futuros professores, uma vez que favorece a compreensão da estrutura do pensamento lógico, o que facilitará a transmissão e a utilização dos conhecimentos aos seus alunos.

Segundo Sérgio Boechat, o xadrez tem semelhanças com a política. Começa pela origem. Não se sabe ao certo, a origem do xadrez. Já foi atribuída a sua invenção aos chineses, aos egípcios, aos persas e até mesmo a Aristóteles e ao Rei Salomão, mas a história não confirma nenhuma dessas lendas. Da mesma forma, em relação à política. Não se sabe quem começou, mas a encontramos em todos os momentos históricos desde os primórdios da humanidade e até mesmo nas páginas bíblicas. No jogo de xadrez as jogadas têm que ser feitas dentro do tempo estabelecido. Na política, também existe um “timing” e quem não o conhece ou não o respeita, ganha o estigma de perdedor.

No jogo de xadrez existe uma previsibilidade de jogadas e o bom jogador prevê a jogada do seu oponente e as próprias jogadas com algumas rodadas de antecedência. Na política, também tem que existir essa previsibilidade e isso faz a diferença entre o bom e o mau político. Assim como há semelhanças, há também sensíveis diferenças entre o jogo de xadrez e o jogo político. No jogo de xadrez, cada peça se movimenta de uma maneira diferente, há um número certo de peças e cada uma tem o seu próprio movimento. Na política, não há limite de peças e nem movimento certo. Todas se movimentam em todas as direções, às vezes equivocada e atabalhoadamente.

Margaret Morford em seu livro “The Hidden Language of Bussines” enfatiza que ser político virou sinônimo de manipulação da vontade do outro, de comportamentos negativos e de não falar a verdade. Por outro lado, ser politicamente correto, implica falar de modo certo. Não por termos aqueles valores ou acreditar naquelas palavras, mas porque aquele é o discurso aceito. Chega à cena então, a ideia da politicagem, que remete a falsidade, a atos inescrupulosos, que visam o benefício próprio e não ao coletivo originando crises como a que estamos vivendo no Brasil. Os políticos corruptos acham que podem fazer o que bem entendem como desviar dinheiro público para suas contas bancárias, cometer crimes de nepotismo, fazer esquemas de compras ou obras superfaturadas e outras condenáveis mazelas. Fazem isso pois acham que são os donos da razão, esquecendo que eles estão ocupando cargos porque foram escolhidos pela população que os julgaram aptos para exercer os mandatos para os quais foram escolhidos. Uma política virtuosa desagua em uma governabilidade onde os recursos públicos são destinadas às prioridades principalmente para a população vulnerável.

No jogo de xadrez a limitação das 64 casas do tabuleiro, a hierarquia e a limitação de movimento de cada peça, coloca as personalidades, as virtudes e os defeitos dos jogadores em um segundo plano. Isso não acontece na política. Todos temos a consciência que o ser humano não é perfeito e dependendo do contexto são protagonistas de uma doença que são os sete pecados capitais: gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria e preguiça. Nos bons políticos essas imperfeições são mínimas. Nos politiqueiros elas são exacerbadas. Para o combate a essa doença só existe uma vacina eficaz, a educação. O grande desafio é transformar os sete pecados capitais em virtudes. Por intermédio da educação voltada para o cultivo de nosso eu interior, poderíamos aprimorar nossos sentimentos, nossas emoções, a nossa sensibilidade e naturalidade tão presente nas crianças, e que os adultos vão perdendo ao criar falsos valores, defesas e máscaras que que os afastam do amor em sua essência mais pura.

Vamos de verdade priorizar a educação. Certamente no xadrez político teremos protagonistas que terão comprometimento com o público e que no seu cotidiano terão como bandeira os princípios éticos. Nesse cenário teremos uma democracia consolidada e a expectativa de um País mais justo para que as futuras gerações de brasileiros possam realizar seus sonhos e alcançarem a plena felicidade. Oxalá isso aconteça.

Fonte: Blog da Política Brasileira


Sobre o autor: *Isaac Roitman é professor emérito e coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília; membro titular da Academia Brasileira de Ciências; e presidente da Comissão Geral do Movimento 2022, O Brasil que queremos. 

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