O estresse tóxico é o mal do século

Por Dioclécio Campos Júnior, professor emérito da UnB para o Correio Braziliense

No século atual, o estilo de vida das pessoas está degradado pelo modelo de sociedade em vigor. Quanto mais se globaliza a economia, maior é o poder do consumismo imposto às populações. Torna-se claro que a existência humana vai perdendo sentido. As novas gerações nascem, crescem e são preparadas unicamente para consumir. A cultura baseada em inconsistentes necessidades materiais é a estratégia que sustenta essa nova modalidade de escravismo. A maioria dos cidadãos é condicionada à prática do consumo de produtos e serviços que nada têm a ver com as condições humanas de que depende a sua dignidade existencial.

É o modismo insano, cada vez mais forte e imperceptível. O preço é pago pela saúde dos consumidores, exposta aos agravos gerados pelo novo perfil comportamental. Entregues ao ilimitado esforço de trabalho em busca de recursos financeiros para a compra de grande número de mercadorias desnecessárias, os habitantes do Planeta são vítimas do estresse tóxico. Suas frustrações, resultantes da impossibilidade do consumo de tudo o que é estabelecido e imposto pelos interesses das classes dominantes, são os agravos que os estressam, afetando o seu bem-estar físico mental e social.

O estresse é uma reação fisiológica normal do organismo, desencadeada por estímulos agressivos, de curta duração, que ocorrem no cotidiano do indivíduo. Em resposta, seu organismo aumenta a produção de substâncias, como cortisol e adrenalina, que impulsionam a fisiologia reativa para protegê-lo das agressões momentâneas. Assim, as ações estressoras cessam em curto prazo e os níveis das substâncias secretadas retornam ao normal. No entanto, quando os fatores estressantes persistem por tempo prolongado, a reação do organismo se mantém. Assim, os níveis das substâncias citadas permanecem elevados, configurando-se um estado de autointoxicação que gera os mais diversos distúrbios. É o chamado estresse tóxico, transtorno que acomete número crescente da população, causado por desajustes diversos, inclusive pelo consumismo ditatorial.

Os sinais dessa verdadeira enfermidade são visíveis, embora subestimados pelas autoridades encarregadas de trabalhar pela promoção da saúde pública. Alguns exemplos são bem chamativos. Entre eles, destaca-se o teor acidificado das conversas por meio das quais ocorre a comunicação interpessoal. As falas se dão em alto som e elevada velocidade, acompanhadas de gesticulação incontrolável, além do uso de palavras e expressões grosseiras e agressivas. Certamente, esse importante distúrbio fisiopatológico está na gênese de boa parte do cenário de violência da atualidade. A prova de tal relação de causa e efeito é evidenciada por incontestável constatação. De fato, quanto mais avança o consumismo, maior é o índice de violência que se observa mundo afora. Deve, por isso mesmo, ser considerada uma doença social de altíssima gravidade potencial.

A criança é, sem dúvida, a maior vítima potencial desse atroz destempero. Já na vida intrauterina, padece do estresse materno. As substâncias produzidas pela gestante estressada atravessam a placenta e podem lesar o organismo fetal, prejudicando a tão complexa fase de formação de tecidos, órgãos e sistemas do novo ser humano. Além disso, desde o nascimento, a criança já é tratada como um consumidor a ser moldado em conformidade com o dinâmico perfil de sua faixa etária. Em outras palavras, os bebês são vistos como meros objetos do modismo infantil capaz de gerar grande demanda de produtos a serem adquiridos pelas famílias, destinados às novas criaturas que passam a integrar o seu contexto.

A amamentação perde espaço. O colo materno começa a ser negado aos lactentes. O contato pele a pele, fundamental para a interação mãe-filho, é menosprezado. A ternura, o afeto e o amor, ingredientes insubstituíveis para a formação cerebral e desenvolvimento saudável da personalidade, são minimizados. A relação mãe-filho converte-se em prática industrializada. Os bebês são carregados dentro de mochilas penduradas nas costas ou no peito de seus pais. Ou deitados em carrinhos nos quais, sem nenhum contato físico e afetivo, são levados para passear. Sequer têm como trocar olhares com os pais. Gritam, choram e esperneiam em virtude da estressante frustração de não estarem no colo materno. Os pais podem não se dar conta desse sofrimento da criança, se concentrados no uso do telefone celular enquanto empurram um carrinho com o filho. Em conclusão, torna-se evidente que o estresse tóxico é o grande mal do século.

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