O Brasil feito por todos e para todos

Dioclécio Campos Junior, professor emérito da UnB, para o Correio Braziliense

A interação respeitosa de um ser humano com o próximo é a essência construtiva do ambiente social fraterno a que todos têm direito. Lideranças sábias e coerentes salientam a alteridade como importante virtude a ser cultivada pelas pessoas.

O perfil da personalidade de um cidadão resulta de sua experiência de vida, que é própria e original. Os conceitos, crenças e convicções pessoais devem ser entendidos como resultado da correlação entre o potencial genético de cada um e os efeitos estimulantes ou inibidores, produzidos no meio ambiente em que amadurecem as características físicas e mentais do indivíduo. É evidência científica a ser difundida entre os habitantes do planeta a fim de que desenvolvam o perfil interativo em favor do bem comum.

A dignificante conduta altruísta assim definida tem sido vítima de ações para inviabilizá-la. Lamentáveis estratégias, utilizadas com tão nocivo propósito, querem desconstruir o cenário sereno e pacífico que está na origem de uma sociedade solidária. Posturas e atitudes fundamentalistas, que se valem de perversos dogmas, são fomentadas para semear a rejeição ao próximo.

Manobras articuladas contra a interação humana saudável buscam promover a divisão das pessoas para impedir sua união consciente. São tramas decorrentes de doutrina política respaldada, já de longa data, na lógica de que para reinar é preciso dividir. Assim proliferam discursos desorientadores dos cidadãos, feitos para jogar uns contra os outros, a fim de que se tratem reciprocamente como adversários. Expande-se, por essa via, a cultura da violência que se afasta do humanismo inspirador da civilização.

A ideologia é um insensato recurso dotado da capacidade de esvaziar a consciência e condicionar comportamentos. É a síntese de descabida dialética. Consiste numa modalidade de ordem imaginária, como define Yuval Harari, que dogmatiza ideias e jargões para convertê-los em símbolos dotados do poder de massificação.

Torna-se assim bem evidente que a apregoada fidelidade ideológica carece de consistência objetiva. Conforme mencionado acima, a opinião de uma pessoa, sobre qualquer tema, deve ser respeitada mesmo que entendida como divergência. Cabe, pois, ressaltar que a característica diferencial de uma ideia não é fruto de ideologia, mas dos componentes que integram a estrutura mental formadora da opinião de cada indivíduo. Se desprezada a valorização das virtudes pessoais do próximo, na qual se baseia a fraternidade, prevalecerão o desrespeitoso preconceito e o segregacionismo que fragilizam os laços da solidariedade humana.

O panorama do Brasil atual é o de um inferno dantesco. São virulentas ideologias que contaminam as entranhas da cidadania, degradando-a em favor do divisionismo voltado para o uso do poder em benefício dos interesses desumanos. As iniquidades sociais, que degradam o país, desfiguram a perspectiva da convivência saudável que irmanava bom número de brasileiros no passado. A banalização do componente educacional de qualidade é responsável pela perda progressiva da consciência moral e ética das sucessivas gerações do país.

A retomada de um caminho construtivo, capaz de reverter a injustiça social em vigor, não será jamais possível se baseada nas disputas ideológicas que infectam a consciência do povo. Trata-se, por tudo isso, de imenso desafio a ser cuidadosamente superado. Nesse sentido, o restabelecimento da serenidade dialogal é pressuposto insubstituível para a superação do divisionismo que tem sido propagado em desfavor da população.

Nenhuma das ideologias econômicas fundamenta as práticas nos princípios humanistas que não podem ser relegados. Para todas elas, um país é entendido como produto da economia, quando, na verdade, a economia é produto do país. Não se pode, por isso mesmo, falar em democracia quando prevalece o imediatismo econômico. Como disse o inolvidável líder da humanidade Nelson Mandela, “democracia com fome, sem saúde e educação para a maioria, é uma concha vazia”.

Assegurar educação de qualidade às novas gerações é a providência mais consistente para desencadear as mudanças inadiáveis com vistas à reconstrução do país. Medidas de transição devem ser adotadas, de imediato, para viabilizá-las. Serão decisivas, se implantadas para criar sólido e incorruptível alicerce capaz de sustentar o plano educacional referido. Em síntese, somente a energia social da alteridade, gerada por procedimentos educativos, será o cerne humanista de um novo Brasil feito por todos e para todos.


*Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e atual presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC)

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