Dioclécio Campos Júnior*

O Dia da Criança é a data a ser festejada pelos avanços e conquistas da sociedade em favor da infância. Merece autêntica comemoração. Caso contrário, será apenas uma data que se presta a interesses menores, sempre econômicos, sem visão construtiva, que não respeitam nem promovem os reais valores humanos inerentes a essa faixa etária. O sólido alicerce da cidadania é a infância na plenitude de seus potenciais cognitivos únicos, originais e inovadores, cujo luminoso horizonte é cósmico e universal. Se a sociedade não tiver alcance suficiente para percebê-lo, a educação de qualidade jamais será prioritária, perdendo-se assim a grandeza com a qual o futuro deve ser construído.

Na Capital da Esperança é possível realçar o Dia da Criança com todo o fervor e encanto a que faz jus. Não pelo desempenho dos indicadores econômicos relativos à venda de presentes e brinquedos, que nada expressam da convicção sublime com a qual precisam ser promovidos os direitos do ser humano em formação. Brasília nasceu para a nobre função de conceber e realizar propostas não apenas arquitetônicas e urbanistas, mas também harmônicas e humanistas, a serem expandidas país afora. São iniciativas-piloto que nascem, crescem e se desenvolvem como rotas seguras, sólidas, inspiradoras, éticas, estéticas e exemplares para a nação brasileira.

Toda essa primorosa riqueza, musa dos artistas construtores da arte verdadeira, é a síntese do admirável projeto "Música para Crianças", gerado há anos e aprimorado incessantemente por dedicados professores do Departamento de Música da UnB. Atuando em sintonia com o legado do genial mestre japonês Suzuki, os louváveis docentes da arte musical da nossa universidade investem nos pendores e talentos potenciais de crianças e adolescentes.

São os distintos professores, espiritualmente engajados numa causa educacional que os projeta com a seiva da radiosa infância, trazida no cerne de seu perfil. Propagam o idioma da melodia comunicativa que cultivam nas suas requintadas entranhas. Seus gestos calam fundo na alma de meninas e meninos, estimulando a respectiva sensibilidade familiar como energia indissociável do êxito alcançado pelo projeto. O brilho dos resultados atingidos está na beleza comovente das crianças que o expressam na mais espontânea perfeição adquirida. Mostram- se profundamente identificadas à maravilha da arte, com a qual passam a se expressar na leveza dos instrumentos musicais que aprendem a tocar.

Além de tais símbolos magníficos que exprimem o teor do que a arte musical pode desenvolver, com as incomparáveis cores da pureza da mente do ser humano em formação, o projeto reforça a relevância das bases científicas que lhe garantem confiável sustentação. A infância é comprovadamente o período existencial com o mais alto índice de capacidade cognitiva. É a fase em que a educação genuína e fidedigna precisa ser prioridade absoluta, como pré-requisito insubstituível para a evolução saudável da sociedade.

Ninguém aprende mais do que a criança. O mestre Suzuki chamou a atenção para uma verdade incontestável. Em todos os países do planeta, as crianças com dois a três anos de vida entendem e falam fluentemente o idioma nativo que dominam por conta própria, sem terem frequentado cursos nem se submetido a plataformas didático-pedagógicas das escolas. Aprenderam o idioma porque, melhor do que ninguém, sabem o que é e como aprender. E não só o idioma. Vão muito além, incorporam espontaneamente os estímulos que lhes chamam a atenção no cenário em que vivem. Tudo isso porque a neuroplasticidade do cérebro, essencial ao desempenho cognitivo, tem os seus índices mais altos durante os seis primeiros anos de vida. Com efeito, há evidências científicas que identificam a música e a leitura na infância entre os principais estímulos construtivos da mente, na fase em que o ser humano aprende sem dificuldades, desde que preservada a dignidade motivante da sua estimulação ambiental.

Assim sendo, o projeto "Música para Crianças", que culmina na orquestra Juvenil da UnB, com sucessivos, fantásticos e emocionantes concertos, há de ser destacado como um dos esteios de elevado mérito para a comemoração do Dia da Criança na capital da República. É o ensejo para a saudação aos docentes do projeto, na pessoa do professor Ricardo Dourado Freire, idealizador da brilhante iniciativa; e aos alunos, em nome de mães e pais que os apoiam com estímulo aconchegante. Salve o "Música para Crianças" da UnB, no Dia da Criança e na Capital da Esperança!


*DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e atual presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC)