Gilberto

Por Cristovam Buarque, professor emérito da Universidade de Brasília, para o Correio Braziliense em 02/06/2020

 

O Brasil tem bons e corajosos jornalistas, diversos escritores premiados, alguns deles dedicados às causas da infância, do adolescente e da educação; tem pessoas generosas que dedicam a vida ao serviço da comunidade. Raríssimas dessas pessoas reúnem todas essas qualidades com a dedicação, o espírito público e a competência de Gilberto Dimenstein, que nós perdemos na última sexta-feira.

Não conheço outro cuja vida tenha tido tantas dessas qualidades, ao mesmo tempo cuja obra nos deixe um legado tão substancial, e a morte nos prive de tantas esperanças. Além de tudo, ele deixa o exemplo de força para enfrentar as dificuldades da doença terminal e viveu os últimos dias com convicção do sentido da vida, lembrando o que deixou para seu país e para inúmeras pessoas.

Gilberto Dimenstein foi um jornalista, mestre para milhares de colegas, com aulas e palestras, mas, sobretudo, com exemplo de seriedade e competência no exercício da profissão. Seus textos, carregados de lucidez e força, todos têm coerência com um humanismo libertário, progressista socialmente e nos costumes. Nunca aceitou submeter-se aos interesses de corporações, nem ao patrulhamento de intelectuais. Pensava e se manifestava com altivez e independência. Comprometido com princípios morais, sem amarras sectárias ou partidárias. Foi militante por valores morais, não por alianças políticas.

Não se contentou com suas colunas, reportagens, matérias, usou o talento para defender causas. Escolheu a bandeira da infância abandonada, sofrida e explorada. Foi um dos primeiros a denunciar, com firmeza e coragem, o problema da exploração sexual e do trabalho de menores. Seu livro Meninas da noite é clássico de reportagem e de luta pelo tratamento digno à criança. Lutou pela educação e por uma educação nova, queria todas as crianças na escola e uma nova escola para todas elas. Queria todas as escolas com a qualidade pedagógica, intelectual e moral que o mundo de hoje requer.

Como raras pessoas, ele sabia que a decência de um povo decorre de como os adultos tratam as crianças hoje; e o futuro do país decorre de como as crianças de hoje são educadas para construírem o futuro. Não satisfeito com o trabalho intelectual para explicar e denunciar, usou as mãos para mudar a realidade. Com sua organização não governamental Catraca Livre, promoveu cursos, criou empregos, organizou militantes pelos direitos da infância. Sonhava e agia na busca de fazermos um país onde nenhuma criança seja maltratada ou deixada para trás, e onde o potencial de cada uma seja aproveitado plenamente.

Além do exemplo e legado, Gilberto Dimenstein deixa fortes lembranças de amizade e gratidão a muitos amigos e admiradores. Sou um deles. Tenho uma dívida por sua amizade e por suas inspirações. Costumávamos dizer que a Bolsa Escola nasceu na UnB e na casa dele, nas nossas conversas e polêmicas. Foi dele, especialmente, a ideia de que a bolsa deveria ser paga à mãe, não ao pai. Projetos aos quais me dediquei foram criados ou desenvolvidos graças a ele. Devo a ele também a divulgação dos projetos e ideias no Brasil e no exterior.

Dificilmente o Brasil terá homens ou mulheres com o espírito público, a competência, a combatividade, a independência e a generosidade de Dimenstein. Nem pessoas com sua simpatia e senso de humor, que manteve até o fim. É enorme o legado que deixa. É enorme também a lembrança de seu riso, de seu humor, de sua alegria. Em uma conversa na semana anterior à sua morte, já demonstrando cansaço no outro lado do telefone, quando rimos por alguma coisa, eu falei de seu humor tão vivo e ele disse: “Se você encontrar um judeu sem senso de humor, ele já está morto ou ainda não foi circuncisado”.

Foi um privilégio ter repartido com ele aquele tempo de amizade de mais de 30 anos e tão presente até hoje. Em certas pessoas muito especiais, a morte vem como um gesto de continuidade, de ressurreição em outros que se orgulham de terem sido seus amigos, admiradores e seguidores. Ele continua em nós, no que fez por nós. As sementes que plantou darão fruto entre os milhares de seus leitores e seus estagiários. Alguns vão crescer tentando ser como ele. Obrigado, Gilberto, pelo que você fez pelo Brasil e pelos amigos.

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