Educação e ciência: O furacão chegou ao Brasil

Por Isaac Roitman, para o Jornal da Ciência –

“Não podemos nos calar, nos omitir, pois estaremos a ferir a nossa própria consciência e comprometendo as futuras gerações de brasileiros e brasileiras “, diz Isaac Roitman, professor emérito da Universidade de Brasília

Recomendo a leitura desse artigo tendo como fundo musical uma marcha fúnebre. Vivemos um pesadelo. Testemunhamos o enterro da Educação e da Ciência brasileira. O furacão chegou. Textos foram escritos, vozes se fizeram ouvir, anunciando sua chegada. Esforço inútil. No olho do furacão a calmaria e a irresponsabilidade dos que ocupam o poder é surpreendente. Não avaliam a magnitude e a cumplicidade do crime que estão cometendo. Como primeiro passo colocaram as Universidades públicas à míngua. Feriram de morte o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Interrompem brilhantes carreiras científicas ao cortar bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes). A fuga de cérebros anunciada é uma realidade e se multiplicará. Todo esforço feito para consolidar e desenvolver o sistema de Ciência e Tecnologia está sendo colocado no ralo.

O que fazer nesse cenário devastador? Ficar em silêncio, nem pensar. O silêncio seria cumplicidade. Vamos lembrar o pensamento de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. Vamos também lembrar o pensamento de Abraham Lincoln: “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes”. Covarde é aquele que não abre novos caminhos na vida, nem emprega as suas forças para enfrentar os obstáculos. Não podemos nos calar, nos omitir, pois estaremos a ferir a nossa própria consciência e comprometendo as futuras gerações de brasileiros e brasileiras.

Vamos amplificar o clamor que tem sido feito pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e por centenas de entidades ligadas à Educação e Ciência, com o objetivo de estancar essa verdadeira hemorragia que compromete o futuro do País.

Nossa juventude não pode ficar calada observando a catastrófica destruição de nossa educação e nosso sistema de ciência e tecnologia. Vocês têm toda a legitimidade de pavimentar as estradas de seu futuro. Lembrem-se sempre do pensamento de Immanuel Kant: “O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”. Vamos à luta. Diga não ao furacão. Não se omita pois é possível que depois do furacão venha o arco íris.


Sobre o autor:

Issac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências

*O artigo expressa exclusivamente a opinião de seu autor

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