É a hora e a vez da primeira infância

Por Dioclécio Campos Júnior, para o Correio Braziliense –

Não é nas urnas eleitorais que uma sociedade se renova, é no útero materno e no berço familiar. Esse é princípio inquestionável. O futuro de um país está na primeira infância, que é o período dos seis primeiros anos de vida do cidadão. Quando a sociedade deixa de investir nessa faixa etária insubstituível, perde o rumo. O horizonte econômico desfaz-se a cada geração. Deteriora-se assim o presente e, como consequência, o futuro desaparece.

O recém-nascido saudável traz ao mundo uma virtude que lhe é inerente. Trata-se do elevado potencial de aprendizagem que requer condições fundamentais para seu desempenho, tais como nutrição de qualidade, aconchego, ternura, afeto e estimulação socioeducativa. É a principal lei da natureza que a espécie humana há de reconhecer e cumprir, sob pena de desmerecer a própria existência.

A humanidade só chegou até o presente graças à renovação populacional que marcou a sua história. Sem criança, nada se cria. Com a dinâmica demográfica desprezada, não se pode falar em educação. Como já foi dito por Cícero, na era romana, a palavra educar significa amamentar e instruir. Mesmo naquela época em que a ciência inexistia, a lógica de tal conceito era tão visível que não faltou sabedoria para identificá-la.

Nos tempos atuais, as pesquisas científicas comprovam que a educação na primeira infância é o alicerce da cidadania. Nessa fase de vida, o cérebro amadurece com alto índice de conexões dos neurônios. É quando se constrói a base anatômica e funcional da mente, que fundamenta o amadurecimento da personalidade do novo ser humano. Contudo, as ações a serem desenvolvidas prioritariamente em favor da infância são banalizadas pelo modelo socioeconômico imediatista que domina o mundo atual. Se as evidências científicas que apontam o caminho seguro para o progresso não forem valorizadas, o descaso com a criança será a atitude mais prejudicial para o futuro da humanidade.

O Brasil atravessa gravíssima crise econômica, social, cultural, ética e educacional. A nação desintegra-se. A violência expande-se de forma avassaladora. O impasse agiganta-se. A causa de tão degradante situação social não é de hoje. Tem origem, já de longa data, no desinteresse no investimento em educação de qualidade das novas gerações.

O atraso tomou conta do país, praticamente em todos os níveis. A penosa encruzilhada em que se encontra a nação configura um momento decisivo para a superação dos desafios que não cessam de crescer. Visões e conceitos completamente ultrapassados devem ser revistos. A cultura do fazer mais do mesmo, que é o perfil da classe política, não pode prosperar. O bem-estar da população deve ser o objetivo primordial de todas as ações governamentais a serem desencadeadas com urgência, sem novas protelações. O efeito ilusório de medidas imediatistas e repetitivas está esgotado.

A crise atual é a prova contundente de que chegou a hora de mudanças profundas na postura das instâncias governamentais. Medidas inovadoras são indispensáveis à construção de uma sociedade verdadeiramente humanista e civilizada que o povo sempre mereceu, mas jamais lhe foi devidamente assegurada. A rota do atraso atinge o ponto final. Não há mais possibilidade de incoerentes atalhos. É um momento histórico para buscar o caminho a ser percorrido de forma construtiva, igualitária, unificadora e altruísta. Em outras palavras: é hora de investir, com pleno fervor, no incentivo à natalidade e no acolhimento amoroso e estimulante da primeira infância. As duas metas devem ser incluídas na REFORMA DA PREVIDÊNCIA para a construção do futuro.

O Brasil necessita de uma quantidade maior de cérebros bem desenvolvidos. São as sólidas bases da sabedoria respeitosa capaz de gerar uma população saudável e construtiva. Para atingir tal objetivo, é indispensável que o acesso à educação de qualidade seja assegurado a todas as crianças, indistintamente. É a igualdade de direitos a ser defendida, respeitadas as diferenças entre os seres humanos que vêm ao mundo. São todos semelhantes, embora nenhum igual ao outro.

O eminente brasileiro Rui Barbosa formulou o primeiro projeto de educação infantil do Brasil. Com o brilhantismo intelectual que possuía, reconheceu que, se a educação na infância não for a prioridade nacional, a sociedade não terá futuro. A situação a que chegou o país comprova sua lúcida profecia. Em síntese, é a hora e a vez da primeira infância.

» DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria, presidente do Global Pediatric Education Consortium (Gpec)

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