Crescimento urbano com espaços de pertencimento na capital federal

*Aldo Paviani para o Correio Braziliense –

Ao ser inserido o Distrito Federal (DF) no grande quadrilátero da Missão Cruls, de 14.400 km², desenhou-se território bem menor de 5.779 km², no qual foi construída a capital federal, a partir de 1957. Muito se escreveu sobre a evolução urbana até Brasília atingir a hierarquia de metrópole nacional. Nessa trajetória de 58 anos (apenas considerando sua inauguração, ou 61 anos, levando em conta o início das obras da capital), agregaram-se características metropolitanas: população de 3 milhões de habitantes, complexidade funcional, ocupação territorial extensiva, fluxos diários de grande porte (commuting), congestão na mobilidade, criação de subcentros, desigualdades socioespaciais, problemas de moradia e tendência à falta de postos de trabalho para uma população economicamente ativa (PEA) que cresce etc.

Pode-se considerar que, em poucas décadas, e com velocidade não esperada, a evolução urbana tornou a capital, que deveria coincidir com o Plano Piloto, é uma cidade esparsa e complexa. Como escreveu Milton Santos, temos uma “metrópole incompleta”. Seria incompleta porque Brasília não possui parque industrial como a maioria das metrópoles brasileiras. As demais características estão presentes, a ponto de o IBGE a considerar Brasília como “Metrópole Nacional 1-B”, ao lado do Rio de Janeiro. A capital seria mais complexa ainda se, ao tempo de elaboração de seu projeto, fosse permitida a instalação de indústrias para atender sua população, tida como possuidora de elevada renda per capita – a mais alta do país. As indústrias localizadas no DF são de pequeno porte e se destinam ao atendimento conspícuo, isto é, do cotidiano da maioria dos habitantes locais. Ampliar esse modelo poderia comprometer a qualidade das condições da natureza ou do meio ambiente

Poderia ter atraído mais atividades? Talvez sim, talvez não. Se sim, quais ramos industriais – não poluentes – teriam vantagens comparativas para aqui se instalar? Se não, quais as razões? Terrenos caros? Infraestrutura incompleta (aqui a ferrovia regrediu, ao contrário dos países desenvolvidos nos quais esse modal tem alentada quilometragem para atender cargas pesadas e passageiros), energia e água no limite de oferta pela atual demanda. Além da infraestrutura a ser ampliada, quais são as possibilidades de uma indústria contar com mão de obra capacitada? Teriam as cidades-satélites (regiões administrativas – RAs) trabalhadores (muitos desempregados) com diferentes níveis educacionais e de preparo técnico? Por fim, haverá vontade de empresários em aqui investir?

Esses são os problemas a serem pensados e enfrentados para novos passos na direção do avanço da capital a fim de que saia do ranking de metrópole com elevado desemprego. Em março último, a Pesquisa de Emprego-Desemprego do Dieese/Codeplan/Sedestmidh estimou que Brasília tem 307 mil desempregados ou 18,9% da PEA/DF – de 1,625 milhão de pessoas.

As questões acima levantadas e alguns aspectos essenciais na vida coletiva e cotidiana conduzem a se pensar na importante característica de uma cidade nova e esparsa, que é a do grau de pertencimento dos habitantes das RAs do DF. As cidades tradicionais, compactas, a proximidade dos bairros leva os moradores a terem maior identidade com o núcleo em que vivem, trabalham, têm atendidas suas demandas do dia a dia e ao longo do tempo, sem solução de continuidade. Por isso, o morador afirma que “não moraria em outro lugar, tem apego à vizinhança. Aqui, no passado, os habitantes de localidades provisórias – favelas e acampamentos de construtoras – eram transferidos para as cidades-satélites, ação que destruía os laços com a vizinhança anterior, detentora de alto grau de sociabilidade e solidariedade.

Portanto, as novas localidades abrigam habitantes que, ao serem transferidos de modo forçado, em 1958 para formar Taguatinga e, em 1971, para constituir Ceilândia, levaram décadas para estabelecer uma cultura local e criar algum grau de pertencimento às novas condições de moradia e vizinhança. Ceilândia, por exemplo, um amplo traçado urbano, recebeu 82 mil moradores das favelas próximas ao Núcleo Bandeirante e, para ter as benfeitorias necessárias criaram o grupo “Os Incansáveis da Ceilândia”, com o qual foram conquistadas importantes facilidades urbanas e infraestruturas, como água encanada, esgotamento sanitário, asfaltamento das vias e não impediram que anexos fossem agregados ao tecido urbano, ampliando ainda mais a maior RA do DF. Assim, hoje algumas RAs mais, outras menos, apresentam suas tradições e elevam as possibilidades culturais e o grau de pertencimento aos que nelas habitam.


ALDO PAVIANI – Geógrafo, prrofessor emérito da Universidade de Brasília (UnB), diretor de Estudos Urbanos e Ambientais/Codeplan e pesquisador do Neur/Ceam/UnB

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