Cientistas nas urnas. Cadê?

Artigo de Bruno Lara, jornalista da UnBTV e pesquisador de pós-doutorado em Ciência da Informação pela UnB, para o UnB Notícias em 03/03/2021

 

Talvez seja o momento de os/as cientistas pensarem em largar os jalecos e experimentarem mais ternos e gravatas. Não para abandonar a profissão, mas sim para usar outras estratégias de defesa da C,T,I&E, sigla para o que eu chamo de Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação. Ao que parece, não basta estar na esfera pública, às vezes é preciso ser um agente público na política institucional e eleitoral. Por que não cientistas e outros profissionais da academia se lançarem a cargos de vereador, prefeito, deputado estadual e federal, senador, governador e até presidente?
Está mais do que provado que ciência não se faz só com instrumentos técnicos de pesquisa, mas também com gente, diálogo, comunicação, relacionamento e dinheiro (sempre insiro de propósito o termo “gente” na frente). Sem articulação política, a ciência patina. Do jeito que está, a representação da ciência na política por agentes não acadêmicos não tem surtido os efeitos esperados. Os cortes na ciência são volumosos e preocupantes há anos, e não há perspectiva de recomposição. Muitas vezes, cientistas sequer ocupam a titularidade do Ministério da Ciência e Tecnologia e nem das secretarias municipais e estaduais de C&T (o que não quer dizer que, necessariamente, as pastas sejam mal geridas).
A pandemia trouxe uma projeção ampla para as atividades científicas. Pesquisadores habilidosos, também, do ponto de vista do diálogo e das linguagens midiáticas têm ocupado diariamente com maestria espaços da chamada mídia de massa, além das redes sociais. É uma tarefa fundamental e que deve receber ainda mais investimento, inclusive depois da pandemia. Porém, não é o suficiente. Cientistas e outros profissionais da academia devem estar nos laboratórios, no Instagram, na grande imprensa e, também, na Câmara e no Senado, entre outros espaços de atuação e
representação políticas. Devem tanto participar das discussões quanto das tomadas de decisão, devem buscar ter a bendita caneta entre os dedos.
O nome “cientista” poderia ser melhor trabalhado. Não é um termo que tem prestígio? Pois bem, que a divulgação científica e o marketing científico trabalhem esse valor.
Muitos candidatos utilizam os seus cargos e funções para se eleger, como “vote no cabo fulano”, “vote no coronel cicrano”, “vote no professor beltrano”. Por que não, por exemplo, “vote no cientista X”? Reitores de universidades públicas e representantes de outras instituições acadêmicas ou dedicadas a assuntos acadêmicos costumam ter alguma projeção social, ainda que regional, bons contatos políticos e alguma facilidade de acesso à imprensa. São personalidades com capital político e potencial de força eleitoral. Não seria exógeno refletirem individual e coletivamente sobre essa possibilidade.
Se a comunidade científica está, de fato, consciente da importância social, cidadã, democrática e republicana das pesquisas, dos produtos, serviços e dos conhecimentos gerados pelas universidades e outros centros de pesquisa, deve considerar lançar candidaturas. Lançar para ganhar, ainda que perca em um primeiro momento, até aprender a se equilibrar no ringue político. Sabemos que é um meio complexo, peculiar e espinhoso, mas cabe experimentar para aprender.
Ao que parece, os assuntos da C,T,I&E estão sub-representados. Tem de haver um início da migração científica para a política institucional e eleitoral, ou a comunidade científica terá que se contentar com o espaço, eu arriscaria dizer, secundário que a ciência ocupa na nossa sociedade. A ciência nas urnas é uma questão de sobrevivência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Photo credit: ascomtrerj on Visualhunt.com / CC BY

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