As fábricas a pleno vapor

Por Cristovam Buarque, para o Correio Braziliense – 

A partir de 2004, os dois governos do PT levaram adiante políticas de ampliação de vagas em universidades públicas, com implantação de cotas e financiamento para as universidades privadas. Foi a forma escolhida para compensar as fragilidades da educação de base na escola pública, que dificultava ingresso de seus alunos no ensino superior. No lugar de fazer as transformações que nossa educação de base exigia para oferecer escola de qualidade para todos, os governos optaram por facilitar o ingresso na universidade. É uma espécie de neoliberalis-mo social: atendendo individualmente as pessoas que precisam, no lugar de reformas estruturais que atendam a todos e ao país.

O resultado foi positivo para alguns milhares de jovens: o número de alunos no ensino superior subiu de 3.887.022 em 2003 para 8.048.701 em 2016. Muitos que não tiveram acesso a uma boa escola de base privada puderam entrar no ensino superior. O sucesso foi ainda maior graças às cotas que permitiram ampliar o número de jovens negros em universidades totalmente brancas até poucos anos antes.

Uma análise mais cuidadosa mostra que esse método no ensino superior não resolveu os problemas da má qualidade e imensa desigualdade como a educação de base é oferecida. Promover pessoas no lugar de fazer a revolução não deixou os resultados necessários. A fábrica da desigualdade educacional continuou com a mesma fragilidade do sistema municipal da escola pública. O número de adultos analfabetos continua praticamente o mesmo há 20 anos e parte deles entraram na escola depois dos governos FHC, Lula e Dilma. São produtos da fábrica de analfabetismo que pinga anualmente jovens de 15 anos sem saber ler nem a bandeira brasileira.

A fábrica também se mantém incinerando cérebros expulsos da escola antes da conclusão do ensino médio, assim como os 40% de jovens que conseguem concluir essa fase, mas sem os conhecimentos necessários para enfrentar a vida contemporânea, ainda menos para cursarem uma boa universidade. A perversa fábrica de deseducação impede os resultados esperados com a política neoliberal-social baseada na promoção de indivíduos.

O mesmo acontece agora, com parte da política anticrime apresentada pelo novo governo. Utiliza o mesmo método neolibe-ral-social dos governos do PT: atacar os problemas pelos indivíduos, no lugar de fechar a fábrica do problema. Antes, os governos colocaram alguns jovens na universidade, agora vão colocar alguns jovens criminosos na cadeia, atacar as malditas fábricas de de-seducação e de crime. Enquanto se colocavam alguns jovens no ensino superior, nem todos em condições de permanecerem e se formarem em profissões com qualidade, a fábrica continuava produzindo brasileiros analfabetos e sem boa educação.

Agora, enquanto aumentar o número de presos, a política contra criminosos vai manter aberta a fábrica de criminosos que continuará pingando delinquentes na sociedade. A política anticrime de Bolsonaro, mesmo que venha a ter o êxito de aumentar cadeias, fracassará por não parar a fábrica de crimes de uma sociedade perversa em suas características; da mesma maneira que o êxito petista ao aumentar o número de alunos no ensino superior não impediu que o Brasil continuasse fabricando deseducados. As prioridades dos dois governos são diferentes, o método, o mesmo: o neolibe-ralismo social, sem reformas estruturais.

O Brasil não mudará enquanto não entendermos que o êxito por paliativos não reduz o problema. Enquanto não virmos que os problemas, universidades ou cadeias, têm origem no mesmo lugar: a educação de base. A chance de uma boa universidade está em garantir educação de base com qualidade para todos, filhos de pobres e ricos no mesmo sistema escolar. A chance para o país ter baixa criminalidade está na garantia de escola de qualidade com oportunidades para todos.

Há 40 anos, Darcy Ribeiro dizia que ou fazemos mais boas escolas ou vamos continuar fazendo mais prisões ruins. De lá para cá, tivemos governos de direita, de esquerda, outra vez de direita, e o remédio continua o mesmo: mais cadeias para prender os adultos violentos que não colocamos na escola quando crianças e mais facilidades para ingressos em universidades sem qualidade, no lugar de mais rigor para formar todos os nossos alunos no ensino médio.

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