As diversas Brasílias e a Covid-19: medo e esperança

Por Aldo Paviani, geógrafo e professor emérito da UnB, para o Correio Braziliense em 04/05/2020

 

”As advertências dos responsáveis pela saúde pública nada mais são do que apelos em todas as mídias: ‘Fiquem em casa’ ou  ‘isolamento social é fundamental’

Em outubro de 2019, perguntei neste espaço por que era importante investir em pesquisas científicas. Em março deste ano, deveria ter insistido na pergunta e procurado respondê-la, geografizando-a, isto é, mapeando os focos da doença, diante da ameaça iniciada com a disseminação mundial da Covid-19. Agora, a preocupação se volta para o pico da pandemia, ao menos é o que médicos, em geral, e virologistas, em particular, têm advertido.

As advertências dos responsáveis pela saúde pública nada mais são do que apelos em todas as mídias: “Fiquem em casa” ou “O isolamento social é fundamental”. Apelos para poupar vidas, em especial dos idosos e dos que possuem baixa imunidade, dos que se gripam com frequência e dos grupos de risco, mesmo sem a virose, demandavam a vacina anual, nesta época, a cada ano. Falta, agora, um trabalho de geógrafo para mapear como, em cada cidade das regiões administrativas (RAs) do Distrito Federal e do meio rural, a população procura o benefício da vacina, que pode evitar males maiores, pneumonias e suas consequências por vezes fatais.
Tenho a convicção de que, em março/abril, a vacinação ainda não foi total para as faixas etárias mais avançadas e sujeitas a infecções de vários tipos. Todavia, a pandemia fez a população despertar para os cuidados com a saúde e toda a população do DF colaborou — ficando em casa — ou reduzindo as saídas à rua apenas em casos de necessidade e urgência. Com isso, as atividades econômicas baixaram a pulsação. Essa redução tem custos de difícil recuperação, mas que todos entendem ser menos questão puramente econômica, mas de salvação das infestações coletivas. Daí surgiu a frase “vidas humanas em primeiro lugar”.
Voltando ao caso do DF, em algumas RAs, sobretudo o comércio ou, em alguns serviços, as atividades continuam como se a Covid-19 não estivesse fazendo alertas de baixas, por vezes aos milhares como na Ásia, na Europa, na América do Norte e no Brasil (aqui, os mortos estarão na faixa dos 7 mil, pelo que é noticiado). O DF, em geral, chegou a ser a unidade da Federação com maior obediência a esta lei da natureza: “Não saltes nessa cachoeira porque podes perecer”, com placas indicando o perigo. Por consequência, muitos temem o aumento dos casos de infecção.
Na semana passada, o DF passou de 56% de isolamento da população para 63%, o que parece indicar que a quarentena é consensual e com ela se protegem vidas humanas, tal como divulgou o Correio Braziliense. Significa barrar os que desejam que as atividades econômicas voltem ao que foram no ano passado. A Páscoa demonstrou que o confinamento e cautelas são necessárias, pois há riscos de os atingidos (e mortos) pela Covid-19 aumentarem e elevarem as estatísticas de casos fatais. Há ignorância até sobre o montante dos atingidos, pois há enorme subnotificação.
Novamente, surge a demanda por estudos mais aprofundados: em que pontos da cidade houve maior infestação? O doente recebeu atendimento em rede hospitalar pública ou privada com a urgência que o caso e o momento exigem? Já se escreveu que “Brasília não é uma cidade apenas, mas várias” e ainda espalhada no território do DF. Em razão da espacialização da população, pode-se afirmar que, não sendo a capital-cidade totalmente emendada ou conurbada, qual a diferença em haver mais infectados entre os lugares carentes e os de mais elevados status?
A última questão não necessita muito aparato técnico para avaliações sanitárias porque o Dieese/Codeplan/Setrab categorizou quatro grupos por renda auferida, em média, pela população do DF. É interessante verificar se essa classificação, ajustada ao mundo do trabalho, serviria para avaliar a pandemia em cada cidade, pois essa regionalização permite o exame da desigualdade socioespacial e, por extensão, às condições de saúde pública da respectiva população.
Sabe-se, por exemplo, que os grupos três e quatro, de média-baixa renda e baixa renda, respectivamente, possuem considerável volume populacional (55,51% ou 1.613.651 habitantes, em 2018), enquanto os grupos um, de alta renda, e dois, de média-alta renda, somam 1.292.923 habitantes, menos da metade da população do DF.
De posse dessas estatísticas, pode-se avaliar se é hora de abrir as atividades econômicas, as escolas, as repartições públicas etc. para funcionamento pleno. A prudência recomenda que se aguarde mais algum tempo para a tomada de decisão. Ao que parece, a espera é a mais indicada, mesmo porque se lê e se escuta que, passado esse tsunami, “o mundo não será o mesmo”. A conferir.

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