A Matemática e o nosso comportamento

Por Isaac Roitman, professor emérito da Universidade de Brasília, em artigo para o Monitor Mercantil em 11/11/2020

 

O aprendizado do ser humano provavelmente começa na vida intrauterina. Ao nascer choramos, um protesto à interrupção do conforto no útero materno. O choro é então utilizado como um tipo de linguagem expressando desconforto, fome, dores etc.

As crianças aprendem a engatinhar e depois andar e aprendem a falar sem que ninguém as ensine. Elas também aprendem os conceitos e as habilidades matemáticas à sua própria maneira, construindo ambientes matematicamente ricos que são, ao mesmo tempo, apropriados e eficazes no seu desenvolvimento. A aritmética é a área da Matemática que trata dos números e as operações entre eles e está presente no dia a dia para resolver problemas simples ou complexos. O desenvolvimento do raciocínio lógico é um processo que se inicia através das quatro operações: adição, subtração, multiplicação e divisão.

A adição é a operação mais natural na vida das crianças. Ela está presente nas experiências infantis. Além disso, envolve apenas um tipo de situação, a de juntar ou acrescentar, que é prazerosa. Sob a ótica de relacionamento, é importante que o conceito não estimule a somar dinheiro e bens materiais para si mesmo. É legítimo agir para conquistar uma vida digna. No entanto, é mais importante contribuir para uma vida digna para todos. Somar com suas ações para o entendimento, a paz e para a proteção da natureza. Somar nas atitudes do dia a dia para um clima de amorosidade familiar e na sociedade. Somar esforços para admirar, conviver e respeitar a diversidade em todas as suas dimensões.

A subtração é uma operação difícil, pois se configura numa ligação de perda, diminuição, entre outros aspectos. Conceitualmente não deve estar ligada a subtração ilícita de qualquer valor material de alguém (calote, estelionato etc.) ou bem estatal (corrupção) e como ação de tirar de alguém (roubo).

A multiplicação consiste na adição de parcelas iguais e proporciona um dos primeiros contatos com a noção de proporcionalidade, uma das mais poderosas ideias matemáticas. Para o seu aprendizado é importante a utilização da tabuada, que são tabelas prontas para dar agilidade no raciocínio lógico da criança. Conceitualmente não deve ser utilizada para multiplicação de bens ou de maus costumes. Ao contrário, deve ser utilizado para multiplicar bons exemplos e ações virtuosas.

A divisão está relacionada à subtração reiterada de parcelas iguais. É importante destacar o fato de a divisão estar ligada a duas diferentes ideias, repartir igualmente e medir, sendo a primeira bem mais enfatizada que a segunda. Sob o ponto de vista conceitual e comportamental é extremamente importante. É o que distingue o egoísmo do altruísmo, a avareza da caridade. As situações ligadas à divisão estarão presentes durante toda a vida da criança.

A geometria com suas formas, a álgebra, os cálculos que buscam soluções e os símbolos que constroem a linguística modelam matematicamente o que está presente na vida num contexto real de vivência, convivência e abstrações que podem em sua essência empírica e em raízes teóricas, formar indivíduos críticos e construtores do próprio conhecimento e promotores do bem social.

O ensino da Matemática é pré-requisito de uma boa educação. Em seu livro Educação e Ética em busca de uma aproximação, o educador Jorge Renato Johann destaca que as potencialidades que o indivíduo pode alcançar como ser social e promotor do próprio conhecimento somente podem ser alcançadas mediante a educação, o que tipifica de forma gradual uma condição humanizada no exercer e desenvolvimento de suas habilidades, que concretizam de forma prática e contextualizada o fator educação na construção individual de cada ser. A educação matemática dita regras pertinentes à construção social e cultural, e de forma mais profunda evidencia os alicerces das estruturas da construção de rígidas regras da perpetuação da humanidade.

A educação matemática, quando aplicada à vida, norteia, desvenda, ajuda, resolve e abre possibilidades dentro da realidade que permeia a cada pessoa, possibilitando o caminhar em um mundo de sonhos e projetos modelados matematicamente inerentes ao cidadão ativo em seus direitos, deveres e responsabilidades.

É importante lembrarmos dois aforismos virtuosos: “A Matemática é a única linguagem que temos com a natureza” (Stephen Hawking) e “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente” (Clarice Lispector).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Photo credit: Timothy Valentine on Visualhunt / CC BY-NC-SA

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