A leitura é o último bastião da liberdade

Por Dioclécio Campos, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria, presidente atual do Global Pediatric Education Consortium (GPEC), para o Correio Braziliense –

Quanto mais a leitura perde terreno, maior é o avanço do império da imagem. Uma perspectiva desoladora. É a prova contundente da profunda transformação que passa a condicionar o comportamento das novas gerações. O progresso evolutivo da espécie contou com a contribuição de duas ações criativas que consolidaram o surgimento de valores mentais e intelectuais. Foram a escrita e a leitura que, ao longo dos séculos, geraram um dinamismo espiritual dedicado e construtivo. São os dois nutrientes intelectuais que robustecem a mente conferindo-lhe a abrangência humanista que possui.

Ler, entender, pensar, refletir e interpretar um texto é a rota sequencial que permitiu desanimalizar o comportamento de boa parte da humanidade. É o alicerce da consciência humana, entendida como a expressão da harmonia mental que se sobrepõe a todo e qualquer interesse que busca ser dominante. Além disso, a privacidade intelectual do leitor foi sempre invulnerável durante o exercício dessa grandiosa prática. Com a atenção concentrada no conteúdo dos textos de uma obra, ele trabalha com a capacidade criativa, em plena liberdade. Configura, por exemplo, com sua originalidade cultural, o perfil dos personagens descritos pelo autor de um romance. Analisa a essência da dinâmica dialogal dos diversos capítulos, captando-a espontaneamente com a visão humana específica de alguém que constrói, para si mesmo, o inteiro teor do texto de cada livro que lê. Armazena, na biblioteca da memória, a versão pessoal dos respectivos textos, elaborada durante a leitura. É o resultado do livre pensar, exercido com independência, leveza, singularidade e amplo potencial criativo, na segura privacidade que o ser humano requer para viver a vida que merece.

O procedimento da leitura harmoniza o cérebro do indivíduo e ativa a sua fisiologia mental. Desenvolve os mecanismos naturais de interação entre o leitor e o perfil do autor, inerente ao texto da obra que redigiu. Destarte, as interpretações construídas durante a leitura são originais e nenhuma delas será necessariamente igual à de um outro leitor da mesma obra. Trata-se de ação primordial da consciência construtiva, que é estimulada de maneira livre e equilibrada.

O âmago reflexivo de quem lê não é submisso a nenhuma estratégia de condicionamento comportamental. Todas as entranhas intelectuais e espirituais de um leitor possuem energia própria que sustenta a expansão serena de sua inteligência criativa, uma virtude inerente ao perfil pessoal. Por isso mesmo, aprender a ler não se restringe à aquisição de competências para identificar letras e formatos estruturais do texto. Tampouco é um exercício que pode ser imposto ao cidadão. Na verdade, é momento de prazer daqueles que cultivam um hábito tão precioso para a parte espiritual do seu organismo.

As conquistas alcançadas no campo da tecnologia de comunicação representam evidências da mentalidade inovadora da espécie. Porém, somente deverão ser confirmadas como progresso se respeitarem as práticas tradicionais, como a leitura, que fazem parte do perfil humano a ser considerado objetivo maior de todo e qualquer investimento.

Pesquisas científicas comprovam o resultado positivo da estimulação mental da criança, por meio da leitura, desde o fim do primeiro ano de vida. É um papel cumprido pelos pais que criam a oportunidade para a mais diferenciada interação com filhos. As obras editadas para tal objetivo são concebidas em conformidade à faixa etária. Mães e pais dedicam-se a ler livros para seu bebê; pronunciam ternamente os fonemas utilizados; destacam, com suavidade afetuosa, algumas imagens desenhadas para tal finalidade; e enternecem a dinâmica do autêntico aconchego materno e paterno.

Desencadeia-se, assim, o despertar psicoafetivo do novo ser humano num clima de amor. O lactente passa a incorporar o estimulante início de um hábito com o qual poderá alcançar o elevado potencial cognitivo que caracteriza a primeira infância. Cuidadores de crianças em creches e pré-escolas necessitam dar continuidade à referida leitura interativa familiar. Os infantes devem contar com o cenário favorável à incorporação desse recurso para a formação da personalidade do novo cidadão. Está demonstrado que, na fase de escolarização, essas crianças são as que alcançam o melhor desempenho de aprendizagem. Em síntese, a ditadura da imagem precisa ser revertida em benefício das próximas gerações. É uma grande causa humana. Não há mais dúvida de que a leitura é o último bastião da liberdade.

DIOCLÉCIO CAMPOS JÚNIOR Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria, presidente atual do Global Pediatric Education Consortium (GPEC) %u2014 Email: dicamposjr@agmail.com

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