A harmonia cerebral da humanidade

Por Dioclécio Campos Júnior, para o Correio Braziliense –

A harmonia do organismo da sociedade é virtude do cérebro humano como insuperável referência. Cada cidadão possui originalidade pessoal, mas a base estrutural e a dinâmica fisiológica de suas ações mentais não são diferentes das que compõem o padrão cerebral da espécie. A consciência social somente será desenvolvida levando-se em conta os exemplos da anatomia e fisiologia cerebrais. São informações educativas impecáveis que não podem ser desprezadas nem omitidas, sob pena de se inviabilizar a convivência humana interativa, pacífica, dialogal e respeitosa.

O órgão central da inteligência, que sustenta o perfil da personalidade do indivíduo, resulta de fenômenos evolutivos que foram capazes de promover a “cerebralização” da espécie. Esse conceito, descrito pelo padre e paleontólogo francês Pierre Theilhard de Chardin, corresponde ao surgimento da estrutura orgânica de um cérebro arquitetado como núcleo das virtudes mentais, espirituais e intelectuais que configuram o teor humanista do Homo sapiens. Conforme observação desse grande pensador, o que passou a existir é uma nova camada à volta do planeta.

É a chamada noosfera cujo significado é a esfera do pensamento humano, entendida como a luminosidade espiritual e mental decorrente da evolução da espécie. Tão sábia concepção está bem definida num de seus conhecidos pensamentos: “Na verdade, duvido que haja, para o ser pensante, minuto mais decisivo do que aquele em que, caindo-lhe a venda dos olhos, descobre que não é um ser perdido nas solidões cósmicas, mas que uma vontade universal de viver nele converge e se hominiza”.

Esses sólidos e cósmicos conceitos merecem ser incorporados à mente humana de todos, com o intuito de que a harmonia do organismo da sociedade seja alcançada em benefício de todos e de cada um.  Para tanto, a difusão de conhecimentos claros e objetivos sobre a anatomia e a fisiologia do cérebro é fundamental. Revelará o caminho a ser percorrido pelos seres humanos, a fim de que o perfil comportamental da humanidade esteja em sintonia com a grandiosa dimensão da noosfera.

O órgão denominado cérebro é constituído pelos dois hemisférios cerebrais. Como se sabe, há o hemisfério da direita e o da esquerda. Ambos possuem, aparentemente, a mesma forma anatômica, embora haja algumas diferenças já identificadas. Em síntese, eles são semelhantes na morfologia e desiguais nas suas estruturas e funções. Dada a magnífica dinâmica fisiológica, inerente a cada um deles, torna-se claro que o órgão cerebral é único e completo porque resulta de convergência construtiva da energia fisiológica e espiritual de seus dois hemisférios.

Em outras palavras, a esquerda e a direita do cérebro convivem em perfeito equilíbrio e no mesmo cenário. Possuem várias formas de intercomunicação, inúmeras vias de sequências funcionais unificadas, fontes de energia anatômica, fisiológica, mental e espiritual que estruturam a consciência. Esse processo, verdadeiramente humano, é parte do organismo de cada pessoa, sendo o cérebro o seu mais sublime símbolo. Infelizmente, poucos são os indivíduos aliados à sabedoria que deve emanar da mente humana, independentemente de peculiaridades de cada qual.

Os cidadãos podem optar pela área direita ou esquerda do ambiente social em que vivenciarão suas crenças. É a escolha do lado com o qual estejam mais identificados na sociedade.  No entanto, além desse direito a ser assegurado ao ser humano, há o respectivo dever a ser por ele cumprido. Do lado esquerdo ou do lado direito, com o qual se identifique, por múltiplas razões, deverá saber superar as diferenças que caracterizam esses dois hemisférios cerebrais do organismo da sociedade em que vive. Ainda que destacando as particularidades identificadoras de seu lado, a sagrada missão de todos é a integração equilibrada e fraterna com os órgãos e sistemas do lado oposto. É o caminho apontado pelo modelo do cérebro humano, que deverá estar integrado ao perfil de todos os cidadãos como a bússola indispensável à sobrevivência da humanidade.

A essência desse novo percurso está na superação de visões restritivas e segregacionistas a fim de que seja estabelecida a ampla integração de funções e iniciativas bilaterais. É o cenário do comportamento construtivo, em conformidade com o modelo exemplar dos hemisférios cerebrais de cada cidadão. A rota de tal mudança é a educação universal de plena qualidade. Se não for promovida, a espécie continuará desperdiçando o fenômeno evolutivo da cerebralização que lhe deu origem.


*Médico, professor emérito da UnB, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria, presidente atual do Global Pediatric Education Consortium (GPEC). E-mail: dicamposjr@gmail.com

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